De repente me deparei com meus 50 anos e isso é uma coisa muito legal. Algo tranquilo, feito visita inesperada: a vida desdobrada. Susto mesmo foi num certo dia quando perdi as contas, somei, dividi, subtrai e, pasmo, vi que estava à beira dos 49. O meio século quase dobrava a esquina. Aí sim bateu um negócio esquisito por dentro, deu uma paralisia na alma e outras histórias que não sei explicar. Na hora houve uma petrificação interna e ali ficou meu espanto e medo.
Desse átimo de tempo saí para minha existência. Que outra maravilha existe senão viver? Uma pessoa quarentona, cinquentona, sessentona tem o dom de ter história. Eu tenho. Pode não ser muita coisa, mas é o caudaloso rio do tempo atravessando-me o corpo, a alma com seus dias, meses, algarismos, cores, cheiros, modas, personagens. Esse leito de águas me traz acúmulos de nascimentos e mortes, balões que vi em céus de outros invernos, paradas musicais adormecidas no esquecimento.
Minha infância repousa noutro tempo, as brincadeiras eram diferentes, o mundo idem. Pelas páginas das revistas acompanhei o surgimento do movimento hippie; pela tela em preto e branco de um televisor de 21 polegadas acompanhei os festivais da TV Record; na ‘‘Fatos e Fotos’’ vi a foto de uma gauchinha que tinha empolgado a platéia do Guarujá (SP), e se chamava Elis Regina. Sou de um tempo em que novela de TV era às terças e quintas - se o ator não chegava a tempo, o capítulo não ia ao ar.
Vi meu pai soltar rojão quando o Brasil foi campeão mundial de futebol; acompanhei histórias de criminosos como Saponga (triste agonia com o Esquadrão da Morte perseguindo seus passos) e Caryl Shesmann; o martírio de Aída Cury num edifício em Copacabana; o homem pisando na lua. Estive em sessões públicas contra a ditadura, contra a morte de Edson Luiz, estudante baleado por policiais no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro.
Era mais um na platéia que aplaudiu ‘‘Hair’’ em sua primeira montagem. Numa velha fábrica de São Paulo deixei-me atordoar pela ‘‘Missa Leiga’’, com Armando Bogus. Num ginásio de esportes tentei fixar o máximo possível a figura de Vicente Celestino, numa mesma noite em que se apresentou Emilinha Borba. Nos meus 18 anos era MPB até a morte e o Brasil estava mergulhado na Jovem Guarda. Do contra, eu.
De vez em quando enterro meus mortos e isso faz parte da vida. Mas assim como a chama se apaga, outras se acendem e multiplicam. Não há porque beber do amargor; existem os laços, os apreços, as aproximações. É uma bênção ter-se o presente, o rio da existência que passa por nós, as histórias criadas a cada instante. Viver é um culto, é a celebração da fé, do aprendizado, de tudo aquilo que não sei e gostaria de saber. Acho que é assim; para mim é assim.

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