Júlio Bressane será homenageado no festival
São Paulo, 17 (AE) - Ivan Cardoso tem seus ícones na cultura brasileira. O maior deles talvez seja Hélio Oiticica, mas no seu panteão particular também existe espaço para Júlio Bressane. O artista selecionado para o Prêmio Multicultural Estadão deste ano será homenageado no Festival do Porto, o mesmo em que Cardoso vai mostrar seu novo curta, "Hi Fi". Cardoso foi convidado pelo festival para fazer a curadoria de uma pequena mostra dedicada ao cineasta. Topou na hora.
"Júlio é gênio, uma das antenas da raça", diz, referindo- se a Bressane. Cardoso selecionou cinco filmes. Começou com "Os Sertões", sobre o padre Antônio Vieira, que ainda está inédito em Portugal, embora tenha sido bem recebido em algumas sessões especiais, selecionou "Tabu", "O Mandarim", "Memórias de um Estrangulador de Loiras" e, claro, "Matou a Família e Foi ao Cinema". "Nenhuma mostra sobre o Júlio estaria completa sem o "Matou a Família", diz Cardoso.
Em grande parte por "Matou a Família", Bressane recebeu o título de gênio do underground brasileiro, o udigrudi. Passou depois a cineasta marginal, um rótulo que detesta. Cardoso destaca o que os tietes sabem: Bressane gosta de jogar com os limites da linguagem e do cinema. Foi assim em "Matou a Família", filme-ruptura de 1969, que ataca o mito da harmonia familiar. Nada a ver com o horroroso remake feito por Neville DAlmeida nos anos 90. O original continua insubstituível.
Por mais que ele deteste o rótulo, Bressane é, dos chamados malditos, o cineasta que mais conseguiu estabilizar uma obra experimental no País. Sofre, como todos seus colegas diretores, das dificuldades de produção inerentes à atividade no Brasil. Mas Bressane vem conseguindo filmar com regularidade. Agora mesmo, conclui seu 40.º filme (entre curtas e longas), sobre São Jerônimo.
Júlio Eduardo Bressane nasceu em 1946 no Rio, onde mora. Formou-se na época do Cinema Novo. Foi assistente de Walter Lima Jr. em "Menino de Engenho" e co-produtor de "Memória de Helena", de David Neves. Dirigiu dois curtas em 1966 - "Lima Barreto: Trajetória", sobre o escritor, e "Bethânia bem de Perto", sobre a cantora. Em 1970, fundou com Rogério Sganzerla a produtora Belair. No mesmo ano, viajou ao Marrocos, à Inglaterra e aos Estados Unidos, onde realizou vários filmes até 1973, quando voltou ao Brasil.
Seu primeiro longa é de 1967 - "Cara a Cara". Dois anos depois, surgiu o filme definidor de rumos de sua carreira - "Matou a Família", que mereceu até tese na Itália. Será exibido no Porto. O próprio Bressane estará presente para prestigiar o evento. Cardoso, habitualmente irreverente, fala com admiração sobre a obra do artista do qual faz a curadoria. É uma admiração recíproca. Bressane já disse que Cardoso está fazendo o mais avançado cinema brasileiro atual. Os dois se adoram. (L.C.M.)





