Juliana Carneiro volta aos palcos do Brasil com o Théâtre du Soleil
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segunda-feira, 26 de abril de 1999
Por Beth Néspoli 
Paris, 27 (AE) - Em breve, o público poderá matar as saudades de uma das mais talentosas atrizes brasileiras, Juliana Carneiro da Cunha, há dez anos afastada do País. E em dose tripla. Num palco especialmente construído no Sesc Belenzinho, na zona leste de São Paulo, Juliana estará liderando o elenco da companhia francesa dirigida por Ariane Mnouchkine, o Théâtre du Soleil, que o Sesc traz pela primeira vez ao Brasil. A trupe permanecerá um mês no País, entre agosto e setembro, e trará dois espetáculos de seu repertório: "Et Soudain des Nuits dEveil" e "Tambours sur la Digue". E no cinema, Juliana interpreta a mãe do personagem central, o filho pródigo André (Selton Melo), no filme "Lavoura Arcaica", de Luiz Fernando Carvalho, inspirado no romance homônimo de Raduan Nassar, previsto para chegar às telas no segundo semestre.
Juliana atuou em várias peças no Brasil antes de partir para a França. Basta lembrar sua interpretação em uma delas, "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant", na qual viveu a criada Marlene, para justificar sua inclusão no rol de nossas melhores atrizes. Em "Petra", Juliana tinha a difícil tarefa de interpretar uma personagem muda, que ficava a maior parte do tempo no fundo do palco. Para chegar até ela, o olhar do público passava antes por Fernanda Montenegro e Renata Sorrah, ambas em grandes atuações. Ainda assim, era impossível não se emocionar com a na época pouco conhecida atriz/bailarina Juliana.
Gestos coreografados, ela atraía a atenção da platéia, mesmo sem emitir uma palavra. Expressava com uma rara combinação de intensidade e sutileza o amor que a ligava a Petra, reagindo aos atos de sua patroa, ora com o rosto banhado de lágrimas, ora pleno de felicidade, numa interpretação antológica. Quem não viu, terá agora a chance de conferir o talento da atriz
ainda mais apurado por dez anos de trabalho com exigente diretora francesa. Coincidentemente, há semelhanças entre o processo de criação da francesa Ariane e do diretor brasileiro Luiz Fernando Carvalho. Os espetáculos do Soleil consomem quase um ano de ensaios e o método utilizado por Ariane é o de improvisações sobre um tema ou texto. Improvisações baseadas no universo dos personagens também ocorreram no set de filmagens de Lavoura Arcaica. Luiz Fernando Carvalho levou todo o elenco para uma fazenda no interior de Minas Gerais, onde durante meses atores e atrizes mergulharam no mundo dos personagens criados por Raduan.
No palco Sesc Belenzinho, o público brasileiro apreciará a atriz interpretando quatro personagens no espetáculo "Et Soudain, des Nuits dEveil" (E Súbito, Noites de Vigília), que estreou ano passado em Paris. Criado a partir de improvisações do atores e finalizado pela dramaturga da companhia, Hélne Cixous, o texto baseia-se numa experiência real. Há quatro anos, Ariane abrigou por quatro meses em seu teatro 300 "sem documentos" imigrantes africanos clandestinos que estavam sendo expulsos da França.
"Noites de Vigília" conta a história de uma trupe de teatro que acolhe um grupo de tibetanos em sua sede. "Estávamos transformando em ficção uma experiência de vida e a maior dificuldade era fugir da linguagem realista", diz Juliana. A solidariedade é o tema da peça, mais precisamente como cada ser humano age diante de uma experiência intensa e real de solidariedade.
Pelo método de trabalho de Ariane, o elenco tem a sua disposição figurinos e máscaras. A cada dia de ensaio, atores e atrizes sobem ao palco com algumas roupas escolhidas e começam a improvisar seguidos de perto pelo músico Jean-Jacques Lemetre cujos sons sugerem climas e estimulam os atores. Personagens - Uma das personagens interpretados por Juliana é Paloma, uma atriz da trupe. "Foi a mais difícil de criar, pois estava muito próxima de mim", diz Juliana. Nos ensaios, Juliana resolveu utilizar cabelos, ventre e bunda falsos para um maior distancianciamento. "Talvez por causa dos seios grandes, de repente, veio a sensação de que minha blusa estava molhada de leite e assim nasceu Paloma, uma mulher que acabara de ter um filho", contou Juliana.
"O drama vivido por Paloma é a divisão entre ficar no teatro e ajudar às mulheres imigrantes e seus filhos pequenos ou ir para casa e cuidar do próprio filho". Quando resolve ficar em casa, Paloma é substituída nas tarefas diárias da trupe teatral por sua tia-avó, uma personagem mais velha, que exige um gestual e densidade muito diferentes de Juliana. "Outro personagem que apareceu subitamente para mim, durante as improvisações, foi o de um mendigo", conta Juliana. E ela ainda vive uma tibetana, Tara.
E o público verá uma Juliana com gestual oriental. Todos os atores do Soleil fizeram uma longa viagem a países como China
Coréia e Japão para prepar "Tambours sur la Digue" (Tambores sobre o Dique), que estréia em Paris no dia 5 de maio e virá ao Brasil. "Como o espetáculo anterior tinha um tema muito próximo
Ariane optou por um afastamento radical em Tambours sur la Digue", contou Juliana. Novamente os atores improvisam acompanhados pela dramaturga Hélne sobre a história de uma pequena cidade do Oriente, situada à beira de um rio que de tempos em tempos enche provocando desastres.
"Não podemos falar sobre os personagens até a estréia"
explica Juliana. Mas adianta que o desejo de Ariane é trazer para o teatro ocidental o rigor e a linguagem não-realista dos orientais. "Os grandes textos estão no teatro ocidental, mas os atores orientais começam a trabalhar aos 6 anos e possuem um perfeito domínio de corpo e voz".
Juliana nasceu no Rio e estudou teatro e dança primeiro no Brasil e depois no exterior. "Fui estudar dança na França e fiz minha formação de atriz em Bruxelas". Entre estudos e primeiros trabalhos, foram dez anos e Juliana voltou ao Brasil em 78. Dois anos depois interpretava Marlene na peça de Fassbinder.
Quanto a uma possível volta ao Brasil, por enquanto só mesmo com o Théâtre du Soleil. "Quero muito viajar com o Soleil ao Brasil, mas fora disso não há nada em vista", diz. "Gosto de trabalhar com Ariane e no momento não sonho em voltar a morar no Brasil, mas nunca se sabe", deixa no ar. "As coisas acontecem quando a gente menos espera".


