ReproduçãoJulia Roberts: do jeito que os americanos gostam... e o mundo diz amémA partir de hoje, quando tietes de todos os sexos lotarem as salas de cinema do País para matar a saudade de Julia Roberts, com certeza a atriz estará automaticamente perdoada. Diante de ‘‘O Casamento de Meu Melhor Amigo’’ , o público que há sete anos jurou fidelidade a partir do megahit ‘‘Uma Linda Mulher’’, e que ultimamente vinha se sentindo traído, vai estar de novo em casa e à vontade. Não mais a sombria e tortuosa relação entre Mary Reilly e Jekyll & Hide no subestimado filme de Stephen Frears; muito distante a luta armada e o líder revolucionário irlandês Michael Collins no frustrante trabalho de Neil Jordan.
Outra vez em terra firme, já a salvo pela performance do box-office - ‘‘My Best Friend’s Wedding’’ está quase alcançando os 150 milhões de dólares, segundo o semanário ‘‘Variety’’ -, Julia volta agora a ser a linda e engraçada mulher que os americanos conhecem, amam e preferem ver. E quando os americanos preferem, o resto do mundo ainda costuma dizer amém.
Os meios e os fins A história desta farsa romântica reúne velhos e sólidos ingredientes para enredar platéias, preparadas ou distraídas. Boazinha mas nem tanto (há um tempero de caráter dúbio que molda o personagem, bem à feição zona cinza/anos 90), Julianne Potter (Julia) é uma expert em gastronomia, e faz disso uma profissão: é crítica de restaurantes. Seu melhor amigo, este mesmo do título, é Michael O’Neal (Dermot Mulroney). Ele atua mais ou menos na mesma área profissional, só que prefere o esporte à comida. Os dois são tão amigos que firmam uma espécie de pacto, o de se casarem um com o outro se até a época em que completarem 28 anos nenhum deles ainda tiver se amarrado com algum terceiro.
Às vésperas do fim do prazo, e já consciente de que Michael é mesmo o homem de sua vida, Julianne é fulminada pela notícia do iminente casamento do outro. Pior: vai ser a madrinha, best friend agora literalmente no altar. É o momento de ser má, mas apenas o suficiente. Ela só tem quatro dias para fazer o possível e o impossível para impedir a festa do rapaz, mesmo que seja necessário jogar sujo. E vai mesmo precisar de todo o talento, pois a noiva do outro lado é a bela, rica e deliciosa Cameron Diaz, lançada como um furacão a partir de ‘‘O Máscara’’. Na missão de liquidar as bodas, Julianne surge com um aliado imbatível, o editor gay George Downes, em elogiadíssima interpretação do inglês Rupert Everett (‘‘Dançando com Um Estranho’’), ator da renovada safra britânica e já cooptado por Hollywood, o que de certa forma faz temer por seu futuro.
De Muriel a Julianne Extenuada após trabalhar com dois dos melhores e mais exigentes diretores ingleses hoje disponíveis no mercado (Frears e Jordan), e não satisfeita com os rumos, digamos, muito ‘‘europeus’’ para uma carreira balizada pela velocidade hollywoodiana - leia-se política de resultados -, Julia Roberts saiu à procura de um diretor que a recolocasse novamente na cômoda e segura trilha do mapa da mina. Parcialmente reconfortada pela experiência com Woody Allen - que somente a convidou para o musical ‘‘Todos Dizem Eu te Amo’’ porque viu nela o mesmo potencial detectado pelos ingleses -, a atriz afinal conseguiu o que queria.
Badalado pelo sucesso merecido de ‘‘O Casamento de Muriel’’, versão agridoce da história do patinho feio, o diretor australiano P.J. Hogan não esperou um segundo chamado para encarar o desafio da ‘‘fazer a América’’, de resto o sonho de 9 em cada 10 jovens e talentosos diretores, atores, fotógrafos, montadores, etc., .. não americanos.
Mera coincidência, seu filme mais importante ser também sobre o tema casamento. Hogan se deu bem com ‘‘Muriel’’, mas as travessuras histriônicas da simpática e casamenteira gordinha interpretada por Toni Colette obviamente não se aplicam aqui. Entre outras diferenças porque o charme das aparências é um dos pontos altos de ‘‘O Casamento do Meu Melhor Amigo’’: em cena quatro belos espécimes do star system contemporâneo.
Se ‘‘Muriel’’ tinha na trilha sonora no grupo ABBA um contraponto kitsch quase orgânico permeando a narrativa, em ‘‘My Best Friend’s Wedding’’ coube ao veterano Burt Bacharach a tarefa de fornecer munição para muitos comentários do roteiro. Respeitosamente, Hogan recicla alguns dos maiores sucessos de um dos mais ouvidos e gravados compositores americanos dos anos 60-70. Se o diretor conferiu ou não status de cult aos sons de Bacharach, esta já é uma outra história.
• O Casamento de Meu Melhor Amigo - Estados Unidos, 1997. Com Julia Roberts, Dermot Mulroney, Cameron Diaz, Rupert Everett. Direção de P.J. Hogan.

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