São Paulo, 29 (AE) - Fama e dinheiro não trazem felicidade. Banal, não? Mas é esse o ponto de partida da comédia romântica "Um Lugar Chamado Notting Hill", estrelada por Julia Roberts e Hugh Grant - e que nada tem de banal. Pelo contrário. Ok, não se trata de nenhum "Cidadão Kane" ou "Encouraçado Potemkim". Mas, se você relaxar, pode muito bem curtir o filme, dar boas risadas e, talvez, até tirar o lencinho do bolso e usá-lo furtivamente em certos momentos.
Qual o segredo dessa boa história que estréia amanhã (30) em São Paulo? Em primeiro lugar, química entre personagens. Julia faz a atriz Anna Scott, milionária, famosa e frustrada. Grant é William Thacker, dono de uma bagunçada loja de livros de viagens. Um dia, Anna entra na loja, os dois se conhecem e, bem, acontece o que tem de acontecer, senão o filme não existiria. Com tudo o que possa ter de previsível, "Notting Hill" encanta por causa do carisma dos personagens.
Julia faz a mulher segura de si, porém triste. Grant é o desamparado de sempre, aquele tipo pseudo-frágil que desperta o instinto materno nas mulheres. Já fez papel parecido no sucesso "Quatro Casamentos e um Funeral". Outro lance engraçado são as auto-referências dos personagens. A certa altura, Anna diz a um tipo, que não a reconhece, ter ganho US$ 15 milhões em seu último trabalho. Piscadinha de olho para quem sabe que ela pertence ao fechado clube das mulheres que contam cachês em vários milhões de dólares.
Há referências também aos problemas de gente famosa com a mídia sensacionalista, remissão direta às complicações de Grant flagrado em ação com uma prostituta dentro do carro. Uma das melhores sequências é a coletiva de imprensa, quando Grant faz-se passar por repórter para aproximar-se de Julia. A atrapalhação, as perguntas idiotas, a baboseira e superficialidade da situação falam muito sobre esses cerimoniais mediáticos que passam por reportagem. Mas, da maneira como é feita a cena, não há rancor, mas sim senso refinado de ironia. É uma grande sacada do filme, dirigido por Roger Michell.
A sequência, além de ótima, revela outro trunfo de "Notting Hill", a fricção entre o humor norte-americano, mais aberto e óbvio, e o britânico, irônico, chegado ao riso discreto. Esse atrito entre dois estilos produz calor, luz - e muitas risadas.

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