A terceira faixa de novelas, antes exibida às 20 horas e agora às 21 horas, sempre foi prioridade dentro da Globo. É para esse horário que a emissora escala suas melhores equipes, elenco e se prepara com cada vez mais antecedência. No entanto, no início de 1996, a Globo tinha dois problemas sérios com sua tradicional "novela das oito". "O Rei do Gado", trama da dupla Benedito Ruy Barbosa e Luiz Fernando Carvalho, iria substituir "Explode Coração" no horário, mas estava com o cronograma bem atrasado e não conseguiria estrear em maio.

Tudo poderia ser resolvido se a autora, Glória Perez, esticasse um pouco sua história. Mas, antes mesmo da produção ser lançada, ela já havia pedido um período de licença para acompanhar o julgamento do assassinato de sua filha, Daniela, ocorrido em 1992. A solução foi reescalonar "O Fim do Mundo", minissérie idealizada por Dias Gomes para o horário das dez, e apresentar às oito como uma mininovela. "A medida foi desesperada, mas o formato surpreendeu. Mexemos um pouco na dinâmica do texto, mas nada muito profundo. A duração foi ótima, foi uma novela sem muita encheção de linguiça", conta Ferreira Gullar, colaborador de Dias na empreitada de 35 capítulos.

A história carregava todas as idiossincrasias da assinatura de Dias. De forte tom político e com ambientação interiorana, "O Fim do Mundo" queria debater os desejos e loucuras da população da fictícia Tabacópolis às vésperas do apocalipse. "A novela queria falar da alma humana. Flagrava um grupo pequeno de personagens em meio aos medos e receios daqueles dias onde existia aquela sensação de que o fim estava próximo. Tudo feito com um humor muito irônico e sagaz", explica Paulo Betti, intérprete do místico protagonista Joãozinho de Dagmar.

Na trama, entre o charlatanismo e a paranormalidade, Joãozinho é conhecido por fazer adivinhações certeiras sobre políticos e outras celebridades locais. Até que um dia, ele acaba prevendo que o mundo chegaria ao fim em três meses. Inicialmente, ninguém acredita, mas fatos estranhos começam a ocorrer na cidade: tremores no solo, tempestades de raios e trovões e o aparecimento de animais fantásticos como uma mula sem cabeça e um bezerro de duas cabeças.

No entanto, apesar dos acontecimentos, passados os três meses, o mundo não acaba. O que leva os principais personagens da trama a acertarem as contas com suas atitudes. Tião Socó, de José Wilker, precisou assumir o amor reprimido pela cunhada Gardênia, de Bruna Lombardi. Filha de Socó, Letícia, de Paloma Duarte, tem de enfrentar a ira de sua família ao ter desistido de se casar virgem com o noivo Josias, de Guilherme Fontes, e ter acabado nos braços do peão Rosalvo, de Maurício Mattar. "Quando a cidade começava a entrar em ordem. Coisas estranhas voltam a acontecer e até os que não acreditavam nas previsões começam a ficar com medo. A minha personagem era uma das incrédulas", conta Vera Holtz, intérprete da pragmática Florisbela, prefeita de Tabacópolis.

Abusando do sobrenatural, o texto de Dias e Gullar era uma prova de fogo para a equipe de efeitos visuais da Globo. "A emissora trabalhava com o que havia de mais moderno em efeitos visuais. Mesmo assim, era difícil conceber as cenas e a pós-produção era minuciosa. Para a época, o resultado foi muito bem avaliado", conta Edson Spinelo, integrante da equipe de direção comandada por Gonzaga Blota e pelo falecido Paulo Ubiratan.

Nos cerca de quatro meses de gravações, a equipe de "O Fim do Mundo" passou por cidades interioranas dos estados de Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro. As gravações foram finalizadas nos recém-inaugurados Estúdios Globo. Com elenco reduzido em torno de 30 nomes, os destaques da mininovela ficaram por conta de Lima Duarte, Carlos Vereza, Norton Nascimento, Tatiana Issa, Isabel Fillards, Otávio Augusto e Alexia Deschamps.

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