São Paulo, 29 (AE) - O primeiro mural modernista em vidrotil instalado em praça pública no Brasil será reinaugurado quinta-feira, às 17 horas, em Juiz de Fora (MG). Projetado em 1949 pelo arquiteto Arthur Arcuri com desenho de Di Cavalcanti (1897-1976), o marco do centenário da cidade mineira, inaugurado em 1951, foi totalmente restaurado e está em processo de tombamento federal pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Apresentando rachaduras estruturais por causa do trânsito pesado na Praça da República, onde está instalado, o mural foi alvo de atos de vandalismo e perdeu várias pastilhas nesse meio século de existência, mas, finalmente, será entregue ao público pela Prefeitura de Juiz de Fora conforme concebido por Arcuri e Di Cavalcanti.
A restauração foi criteriosa e a comunidade colaborou na recuperação do mural, que mostra a vocação ascensional da espécie - Di Cavalcanti era um humanista - por intermédio de figuras que acompanham o ritmo da arquitetura de Arcuri, sintonizada com a de Niemeyer. Foi seu escritório que indicou Di Cavalcanti para a elaboração do mural. Na época, o artista, um dos modernistas pioneiros no Brasil, estava ocupado com outro projeto de grandes dimensões, o mural da fachada do prédio onde hoje funciona o Teatro Cultura Artística, no centro de São Paulo. Polêmica - Um jornalista, Jorge Sanglard, que há três anos trabalhava como repórter na "Tribuna de Minas", deflagrou o movimento pela recuperação do marco. Denunciando o abandono do mural, ele conseguiu sensibilizar as autoridades e liderou uma campanha por sua recuperação. Foi atrás do arquiteto Arthur Arcuri e revirou seus arquivos até achar o desenho original de Di Cavalcanti. Encontrou outras preciosidades: duas cartas do artista, a primeira autorizando a inversão de seu trabalho para adequação do monumento ao projeto do arquiteto e uma segunda, acusando o recebimento do cheque de pagamento.
Essa documentação, que atesta o pioneirismo do monumento
estava guardada entre os papéis do projetista e deverá ser futuramente doada para um museu mineiro. Sanglard diz que os documentos atestam a participação de Niemeyer na sessão de aprovação do projeto do marco do centenário na Câmara Municipal de Juiz de Fora, em março de 1950. Na época, afirma o jornalista
a construção do marco provocou polêmica entre tradicionalistas e modernistas. Os primeiros criticaram severamente o mural de Di Cavalcanti, chamando-o de "monstrengo". Os modernistas o saudavam por sua originalidade. Por trás dessa briga, segundo Sanglard, escondia-se outra razão. No mesmo local deveria ser construído um monumento ao expedicionário brasileiro. Os pracinhas perderam o lugar, mas Juiz de Fora ganhou seu primeiro marco modernista.
A comunidade mineira ajudou na restauração. A Associação das Damas Protetoras da Infância de Juiz de Fora cedeu parte das pastilhas azuis de uma parede da mesma época do monumento. O condomínio de um prédio de Belo Horizonte, que estava trocando as pastilhas brancas de sua fachada, doou o material para que a base do mural de Arcuri pudesse ser restaurada. A indústria Vidrotil, em São Paulo, que na época do projeto do mural tinha apenas dois anos de vida (ela foi inaugurada em 1947), fez uma pesquisa para recuperar no estoque de pastilhas as cores originais do mosaico. O diretor da Vidrotil, Mário Filippo Pellicciotti, doou as pastilhas necessárias, assegurando sua restauração. Empresas como a Hoechst também participaram da obra
fornecendo recursos necessários para a reforma. Nova fase - A coordenadora da Comissão de Patrimônio da Universidade de São Paulo, Maria Cecília França Lourenço, classificou o mural de Di Calvalcanti como uma obra que inaugura uma nova fase na sua carreira, em que ele trabalha com formas ziguezagueantes e angulosas. Segundo a especialista, o pintor modernista interessa-se pelo monocromatismo e nesse mural já é possível perceber os traços angulosos que determinariam o ritmo de sua composição. "De acordo com seu livro "Operários da Modernidade", o painel do Cultura Artística ainda revelava uma forte inclinação picassiana", observa o jornalista Jorge Sanglard. "Se analisarmos o monumento, fica evidente a intenção em defender a atualização da cidade em face de Belo Horizonte, que construíra o complexo da Pampulha, dominado pelo arrojo da arte moderna", conclui a coodenadora da Comissão de Patrimônio da USP, que espera ver um dia a histórica obra de Niemeyer e Portinari preservada como o marco de Juiz de Fora.

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