A ascensão do Nazismo na Alemanha, no início da década de 30, levou milhares de famílias à experiência do exílio. O Brasil foi um dos países que acolheram comunidades de judeus-alemães perseguidos pelo Terceiro Reich, assentando-os em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Santos.
Alguns refugiados estabeleceram-se no Norte do Paraná, particularmente na região onde seria fundado o município de Rolândia, vizinho a Londrina. O historiador Marco Antonio Neves Soares foi atrás desses personagens e de seus descendentes para tentar reconstruir sua trajetória, desde o temor vivido na Europa às dificuldades para se adaptar ao novo mundo.
O resultado da pesquisa é o livro ''Da Alemanha aos Trópicos - Identidades Judaicas na Terra Vermelha (1933-2003)'', que ele lança nesta quarta-feira, às 20h30, no bar Valentino, em Londrina, antes do show de jazz da banda Cinemática. O livro chega às prateleiras pela editora da UEL (Eduel) buscando compreender as teias de relações criadas entre os imigrantes com a Alemanha, o Brasil e o judaísmo.
A pesquisa surgiu como um desdobramento dos estudos do autor sobre ''judaísmo no período medieval'', desenvolvido durante o Mestrado e o Doutorado, e sobre o tema ''Etnicidade e Morte'', ao qual tem se dedicado nos últimos 10 anos. A investigação contou com a colaboração de 12 alunos de gradução do curso de História da UEL que o ajudaram nas entrevistas, no levantamento de documentos e no exame de cultura material.
''Uma importante base documental foram os relatos autobiográficos, histórias de vida que eles escreveram e que não haviam tornado públicos. Encontrei seis de oito relatos. Também tive longas conversas com remanescentes da primeira geração de imigrantes'', explica Marco Antonio. Segundo ele, a comunidade reuniu 80 famílias de origem judaica.
Elas começaram a chegar em 1933 e, com mais intensidade, entre 1938 e 1939. Posteriormente, mais famílias desembarcaram no período pós-Guerra. O desembarque foi possível a partir da aquisição de terras da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), de capital inglês, pela Sociedade de Estudos Econômicos do Ultramar, fundada por políticos ligados ao Partido Social-Democrata.
Na época, a região era coberta pela mata. ''Muitos dos que vieram eram pessoas proeminentes na Alemanha. Havia intelectuais, professores, médicos, juristas e artistas. Eles não se organizava em torno da religião, do judaísmo, mas concentravam suas atividades em torno de uma associação cultural intitulada Pró-Arte que promovia palestras com convidados de outras cidades'', conta.
Marco Antonio explica que eles procuravam manter os elementos da cultura alemã, a qual já estavam integrados. ''O judeu-alemão, com sua vestimenta e aparência, não existia mais na Alemanha. Foi uma criação de Hitler'', salienta. Uma das curiosidades do livro é o fato de que, por volta de 1935, os exilados tiveram que conviver com uma pequena célula do Partido Nazista - alemães que haviam deixado o Estado de Santa Catarina para fugir de doenças tropicais.
''Isso vai provocar uma reação das famílias, que passam a se auto-organizar e se proteger deixando inclusive de mandar seus filhos para a escola de alemão porque haviam símbolos e bandeira nazistas na fachada. Preferiam trazer professores da Alemanha para dar aulas em suas fazendas'', sublinha. A preocupação em preservar a cultura alemã se reduziu, na verdade, à primeira geração de imigrantes, mais coesa e fechada.
''Os filhos já nem falavam alemão, cresceram aprendendo o português. Procuraram assimilar a cultura do ambiente em que viviam já que Rolândia abrigava comunidades de italianos, poloneses, búlgaros e brasileiros de outras regiões. Ao se relacionar com outras etnias, se miscigenaram com outras populações'', lembra.
Para o autor, o livro poderá promover o reencontro de muitos refugiados e seus descendentes com suas origens. ''Embora seja uma obra de história regional, que permite recontar a experiência do exílio no Norte do Paraná, ela tem um caráter globoal, afinal o nazismo fez com que famílias de origem judaica se espalhassem pelo mundo. Os moradores de Rolândia têm parentes em Israel, na República Tcheca e em outros países'', assinala.
Marco Antonio é professor adjunto do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e atua na área de teoria da História. Atualmente dirige o Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UEL.


Serviço:
- Lançamento do livro ''Da Alemanha aos Trópicos - Identidades Judaicas na Terra Vermelha (1933-2003)''
Quando - Quarta-feira (23) às 20h30
Onde - Bar Valentino (Av. Pref. Faria Lima, 486), em Londrina
Preço do livro - R$ 30

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