Fernando Miragaya
TV Press
Em seu novo programa, que estréia hoje na Rede TV!, Juca Kfouri pretende ‘‘intelectualizar’’ os debates esportivos. Não serão convidados jogadores e técnicos de futebol
Juca Kfouri diz que vai inaugurar um novo conceito de mesa-redonda com o programa ‘‘Bola na Rede’’. Apesar de a declaração ser um lugar-comum em quase todas as estréias, o programa semanal pode mesmo fugir aos formatos convencionais de debates esportivos. Em vez de jogadores e técnicos de futebol, Juca promete um debate intelectualizado no programa que estréia hoje, às 20 horas, na Rede TV!, ao convidar pessoas de fora do meio futebolístico, como escritores, músicos e artistas. ‘‘A maioria dessas mesas-redondas da tevê é horrível. Quero uma coisa mais viva, mais inteligente’’, avisa o jornalista paulistano de 46 anos.
Não é por preconceito que Juca deixa atletas, técnicos e dirigentes de lado. Ele teve experiência suficiente com desportistas nos seus quase 30 anos de carreira. Foi repórter da ‘‘Placar’’ e depois se tornou Diretor de Redação da revista esportiva e da ‘‘Playboy’’. Na tevê, foi colunista do ‘‘Jornal da Globo’’ e teve um talk show que levava seu nome na CNT. Cobriu cinco Copas do Mundo e se destacou na imprensa esportiva pelas críticas ferrenhas à cartolagem do futebol brasileiro. ‘‘Com quase 50 anos, diria que trabalhar com absoluta independência e liberdade é obrigatório’’, garante Juca.
Por que substituir jogadores e técnicos de futebol por pessoas de fora do meio esportivo?
O cara no domingo à noite tem vontade, é claro, de ver os gols. Mas, em regra, quando o programa traz jogadores, o ritmo cai. Às vezes o jogador é o herói da rodada, fez quatro gols, mas não tem ‘‘lhufas’’ de interessante a dizer. Imagino um dia fazer uma mesa que tenha o Ruy Castro, o João Ubaldo Ribeiro, o Chico Buarque, o Mário Prata... Vai ser mais viva, inteligente e inserida na vida nacional. A idéia é que não seja só bola, bola, bola, mas tenha a ver com o Brasil, com a política e com o que aconteceu na semana.
Como você avalia os demais programas esportivos?
Vejo tudo por razão do ofício. Pelo formato meramente informativo, o ‘‘Globo Esporte’’ e o ‘‘Esporte Espetacular’’ são dois bons programas. Também tem o ‘‘Cartão Verde’’, até por ter participado dele estes anos todos. Acho até que o ‘‘Cartão Verde’’ se firmou como um programa de prestígio por percorrer uma linha diferente. Já essas mesas-redondas são horrorosas. No fundo, são um show de merchandising e uma agressão à inteligência do telespectador.
Você não fica preocupado em largar uma produção já estruturada como o ‘‘Cartão Verde’’ e partir para tentar conquistar um novo público?
Não, mas tenho dor no coração por largar o ‘‘Cartão Verde’’. Quanto mais velho, mais curtido a gente fica. Mas dor de coração maior do que ter deixado a ‘‘Placar’’ é impossível. Era meu filho mais velho. Tive receio quando saí da Abril. Afinal, estava há 25 anos lá e me perguntava como é que o mercado olhava para mim. ‘‘Será que eu vou ter chances? Será que não vão achar que sou móvel e utensílio da Abril? Será que vão achar que sou muito caro?’’ E descobri que o mundo aqui fora é fantástico e generoso. Depois disso, não tenho mais receios. Pelo contrário, estou com um baita tesão. Vai que dá certo, fomos nós que fizemos. E a turma está lá para fazer dar certo.
Você é um corinthiano assumido. Isso não compromete seu trabalho como jornalista?
Não vejo por aí, até porque revelar o time dá mais dissabores do que prazeres. O torcedor do outro time agride porque você não é do time dele. E o torcedor do seu time agride porque não aceita que você seja crítico em relação ao clube. Já cheguei ao Pacaembu com uma faixa da Gaviões da Fiel escrita: ‘‘Juca Kfouri, a Fiel é uma só.’’ Tudo porque havia dado uma capa de ‘‘Placar’’ dizendo que ‘‘A Fiel Verde Estava Feliz’’, pois a torcida do Palmeiras era a que estava comparecendo mais aos estádios. Acho que o telespectador, leitor ou ouvinte tem uma legítima curiosidade em saber qual é o time das pessoas. É um dever de transparência. Acho que ser corinthiano não atrapalha em nada o meu trabalho e minhas opiniões. Acho que o telespectador tem o direito de saber.
Seguindo este raciocínio, os comentaristas políticos deveriam falar em quem vão votar?
Realmente seria um exagero aplicar essa regra na política. Mas o futebol envolve muitas emoções. E uma coisa tão emocionada como o futebol, ainda mais no Brasil, comporta esta verdade e permite que os profissionais assumam os clubes pelos quais torcem.

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