Sem ter nutrido pretensões professorais, José Paulo Paes mostrou que estética e ética não rimam à toa. Morto há exatamente 10 anos, o escritor paulista inventou uma literatura concisa e um comportamento discreto. Soube desprezar a soberba intelectual e exerceu a vocação democrática da cultura. Era autodidata, tradutor e crítico. ''Ele manteve a cultura como uma aspiração democrática'', diz o crítico Rodrigo Naves. A arte, para JPP, nunca seria o verniz brilhoso de um cérebro oco.
E para celebrar seu trabalho artístico, até o fim do mês a Companhia das Letras manda para as livrarias duas obras: ''Poesia Completa'' e ''Armazém Literário''.
Nos anos 90, ele lançou uma autobiografia - ''Quem, Eu? Um Poeta Como Outro Qualquer'' (Atual) - na qual fim e começo se confundem. Sua vida parece simples. Nasceu em 1916 e mudou-se para Curitiba em 1944, onde estudou química e colaborou na ''Joaquim'', revista de Dalton Trevisan. Estreou com ''O Aluno'' (1947). Voltou a São Paulo em 1949. Entrou na Squibb, uma indústria farmacêutica. No início dos anos 60, foi para a editora Cultrix, onde se aposentou, momento coincidente com a amputação da perna em 1985. Sofria grave problema circulatório.
Em ''Prosas Seguidas de Odes Mínimas'' (1992), ele dedicou um poema ''À Minha Perna Esquerda''. ''Longe/ do corpo/ terás/ doravante/ de caminhar sozinha/ até o dia do Juízo. (...) Os maus passos/ quem os deu na vida/ foi a arrogância/ da cabeça/ a afoiteza/ das glândulas/ a incurável cegueira/ do coração.''
Não pode haver vaidade naquele que percebeu seu lugar no mundo: a de um corpo sujeito às agruras do tempo destrutivo. Ele tinha a literatura para se proteger contra o sem-sentido. ''E a coisa do sem-sentido, como o jogo lúdico com as palavras, está na base da poesia'', diz Vilma Arêas, organizadora de ''Armazém Literário''.
Apesar da saúde frágil, Zé Paulo viveu 72 anos. ''A Dora o manteve vivo, o forçava a fazer exercícios e dietas'', diz Naves. José Paulo Paes se casou com Dora em 1952 e a ela dedicou Cúmplices (1951) e um amor simples como ''a água e o pão''. Montaram uma casa em Santo Amaro que foi ganhando a feição dos donos: a da simplicidade.
Nos mais de 10 anos seguintes à aposentaria, dedicou-se exclusivamente a escrever e traduzir (ele traduzia francês, italiano, inglês, espanhol, grego e latim sem dominar os idiomas). Na estréia literária, a introspecção e a memória prevaleceram. Depois veio a fase da produção mais impessoal, com a qual alcançou a maturidade.
Ele respondia ao momento histórico - a violenta e obscura ditadura militar. ''economiopia/ desenvolvimentir/ utopia/ consumidoidos/ patriotários/ suicidadãos'' (''Seu Metaléxico, poema de Meia Palavra''). ''Ele tinha obsessão pela brevidade extrema, é um traço de estilo com o qual manteve as verdades a igual distância'', diz o crítico Carlos Felipe Moisés. A precisão e concisão se revelaram plenamente nos epigramas, composição na qual foi mestre, marcados pela ironia sutil.
''José Paulo Paes era não apenas grande poeta, crítico, ensaísta e tradutor, era um belo e surpreendente ser humano'', diz Moacyr Scliar. ''Humor na poesia? José Paulo Paes, sem dúvida'', completa. No fim da vida, escreveu para crianças e permitiu-se menos concisão, como se nota em ''Socráticas'' (2001), livro póstumo.
Os poetas são aqueles que ficam ali no caminho, a incomodar, e que muitos querem varrer da vista. ''Com sua obra, JPP revelou injustiças e erros, fez pensar'', diz Carlos Felipe Moisés. Hoje há um poeta no caminho, a pedir calma e amadurecimento. Ele se chama José Paulo Paes.

mockup