Depois de conquistar o mundo com sua voz afinadíssima, o violão swingado e as composições refinadas, Joyce Moreno se apresenta pela primeira vez em Londrina. Acompanhada por um trio de músicos experientes, a cantora, compositora e instrumentista carioca faz show hoje à noite, no Teatro Marista, como uma das atrações do projeto Vectra ConstruSom. O espetáculo terá como base as canções do CD "Tudo" - mais recente álbum de inéditas da intérprete - e grandes sucessos da artista, que está comemorando 46 anos de carreira.
Considerada uma das filhas da Bossa Nova, Joyce lançou seu primeiro disco em 1968. Criada na zona sul do Rio de Janeiro, a cantora logo chamou a atenção do público e da crítica pelo rigor na escolha do repertório e por suas composições precursoras do movimento feminista que viria a dominar a MPB na década de 70. O álbum de estreia, batizado com o nome da artista, trazia seis músicas autorais e canções inéditas dos também iniciantes Paulinho da Viola, Francis Hime, Marcos Valle e já dava uma clara amostra da riqueza poética e musical que nortearia a carreira da carioca.
Ela foi a primeira compositora da MPB a utilizar a linguagem feminina na primeira pessoa, mas não se restringiu a retratar apenas esse universo, Joyce cedeu parte de sua obra autoral aos maiores intérpretes do País. O time inclui Elis Regina ("Essa Mulher"), Maria Bethânia ("Da Cor Brasileira", parceria de Joyce com Ana Terra), Milton Nascimento ("Mistérios"), Nana Caymmi, Chico Buarque, Zizi Possi, Ney Matogrosso e mais recentemente Maria Rita ("No Mistério do Samba").
A maestria musical de Joyce fez da artista um dos nomes brasileiros mais celebrados no exterior, com frequentes turnês pelas mais renomadas casas de espetáculos do Japão, Europa e Estados Unidos. O show da cantora em Londrina marca a 17ª edição do projeto Vectra ConstruSom, que já trouxe para a cidade outros nomes consagrados da MPB como Ná Ozzetti, Mônica Salmaso e Chico César.
Em entrevista à FOLHA por e-mail, Joyce falou sobre o show de hoje à noite e momentos marcantes de sua carreira.

ENTREVISTA

A senhora foi uma da precursoras da revolução feminina que dominou a MPB a partir da década de 70. Como avalia sua participação nesta conquista das mulheres cantoras e compositoras brasileiras?
Quando subi num palco pela primeira vez, aos 19 anos, num Festival da Canção, fui vaiada por ter usado a expressão ‘meu homem’ numa música minha. Logo em seguida saiu meu primeiro disco, e por eu escrever minhas letras na primeira pessoa do feminino (o que até então não tinha sido feito na música brasileira, a não ser por compositores homens), fui duramente criticada. ‘Grande música, difícil de acreditar que tenha sido feita por mulher’, disse um crítico. Ou seja, até minha autoria estava sendo posta em dúvida. Isso foi em 1968. O grande boom das compositoras foi acontecer mais de dez anos depois. Às vezes leva tempo para que conquistas que parecem óbvias se concretizem... Felizmente hoje as mulheres podem se expressar livremente.

Entre as mais de 400 gravações de suas músicas por outros intérpretes tem alguma que a tocou em especial? Por quê?
Gosto de praticamente todas, mas vou citar uma em especial: a gravação de Elis Regina para ‘Essa Mulher’, em 1979, que acabou sendo faixa-título do disco dela, e de que também participei tocando violão. Foi um momento incrível, ela se emocionou muito, cantou chorando. Hoje, Maria Rita canta essa mesma canção e também se emociona, e diz que foi com essa música que ela começou a compreender a mãe. É a magia da canção no tempo.

Como a senhora avalia o reconhecimento que tem do público e da crítica internacional comparado com o mercado nacional?
Há quase 30 anos o mercado internacional começou a se abrir para o meu trabalho, primeiro na área do jazz e dos aficionados por música brasileira, e, a partir dos anos 1990, com a descoberta da minha música pelos DJs de Londres, houve uma tremenda renovação de público. Hoje faço shows e turnês anuais no Japão, na Europa e nos EUA. A música criativa brasileira (sempre digo que faço MCB, e não MPB) tem maior dificuldade em ter espaço no Brasil. A importância que a música tinha na vida do brasileiro mudou muito, hoje tudo é música de massa, feita em escala industrial, grosseiramente. Eu faço arte, não estou interessada em fazer da minha arte um artigo de supermercado, descartável. A música é um dos maiores tesouros do Brasil, a quem interessa jogar isso fora? Não há dúvida de que a MCB seja o produto cultural brasileiro de maior visibilidade no exterior. Ontem, por exemplo, recebi um e-mail de uma universidade na Finlândia me pedindo partituras, porque os alunos vão fazer um programa só com músicas minhas. Isso significa que essa visibilidade, esse respeito, esse amor existe, não é?

A senhora é considerada uma compositora exímia, uma cantora afinadíssima e uma instrumentista aclamada. Qual dessas atividades executa com mais prazer?
Agradeço os elogios, mas o que posso dizer é que voz, violão e composição são ferramentas que uso para expressar meu pensamento musical. É isso: quero pensar a música e contribuir com o que sei fazer. E faço com prazer, sempre.

Ao longo de décadas de carreira, a senhora acompanhou o surgimento de várias gerações de cantores e compositores. Quem destacaria entre os novos talentos?
Há uma geração interessante de jovens sambistas na Lapa, aqui no Rio, como Pedro Miranda e João Cavalcanti. Há grupos instrumentais excelentes, como a Orquestra Revelia no Rio e Bixiga 70 em SP. Há jovens e talentosas cantoras/compositoras/instrumentistas, como Antonia Adnet, Joana Queiroz, Maíra Freitas, Alice Caymmi. Há compositores originais, como o baiano Tiganá Santana. A música prossegue...

Essa é a primeira vez que se apresenta em Londrina? Algum motivo especial para nunca ter vindo à cidade?
Faltou ser convidada... Se me chamarem eu vou, sempre.

Qual a expectativa para o show que fará no Teatro Marista? Pode falar um pouco sobre o repertório e como será a apresentação?
Estarei tocando com o trio que me acompanha regularmente nas turnês e gravações - Tutty Moreno (bateria), Rodolfo Stroeter (baixo) e Rafael Vernet (piano). O repertório se baseia no meu CD mais recente, ‘Tudo’, lançado no ano passado pela Biscoito Fino, e indicado ao Prêmio da Música Brasileira de 2014 como Melhor CD de MPB. É um CD de inéditas, todo autoral. Mas também estarão presentes coisas mais conhecidas do meu repertório, como ‘Feminina’, ‘Clareana’, ‘Essa Mulher’ e outras. Estou curiosa para ver a reação das pessoas às novidades... Até agora tem sido tudo ótimo.

SERVIÇO
Show de Joyce Moreno
Quando – Hoje, às 20h30
Onde – Teatro Marista (R. Cristiano Machado, 240)
Quanto – R$ 40 (promocional antecipado doando um litro de leite longa vida) R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada)
Informações – (43) 3376-4444

mockup