Joyce Moreno em alto astral
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terça-feira, 27 de maio de 2014
Marilayde Costa<br>Reportagem Local 
Dar início a um show exatamente quando soa na plateia um celular e responder a esta falta de educação ou mera distração com a frase "pra mim é que não é" e um largo sorriso no rosto é sem dúvida uma boa forma de começar a cantar e encantar o público. Foi assim com todo este bom humor e leveza que Joyce Moreno arrancou risos da plateia, soltou sua suave voz e começou o espetáculo no sábado no Teatro Marista de Londrina, em mais uma atração do projeto Vectra ConstruSom.
Como não poderia deixar de ser, abriu o show com "Samba de Mulher", uma de suas composições feministas que fez em parceria com Léa Freire, que fala da força e, ao mesmo tempo, da fragilidade da mulher. A canção está em seu álbum Live at the Mojo Club, gravado em Hamburgo, na Alemanha, de 1995. Embalada pelo mesmo gênero musical, interpretou o samba-canção "Puro Ouro", de seu último disco, "Tudo", integralmente autoral, que gravou para o Japão em 2012 e foi lançado no Brasil em 2013.
E logo depois, manifestou sua alegria de estar pela primeira vez em Londrina, conhecendo o público daqui e mostrando seu mais recente trabalho, que confessou estar dando "enormes alegrias, em todos os sentidos, entre elas o encontro e reencontro com parceiros novos e antigos". Como é o caso da canção que fez em seguida, a bossa nova "Estado de Graça", a primeira parceria com o seu velho amigo e novo parceiro Nelson Mota.
Antes de "Essa Mulher", canção que ficou famosa na voz de Elis Regina, Joyce relembrou a alegria em ter esta música gravada pela Pimentinha e por ter se tornado a faixa-título de um dos discos mais bonitos da amiga, "que continua cantando cada vez melhor", possivelmente fazendo referência a filha de Elis, Maria Rita.
Um dos momentos mais intimistas entre a cantora e os fãs se deu quando Joyce disse "adeus" a todos os músicos da banda, ficou só no palco, apenas com o violão, e começou a introduzir os primeiros acordes de "Clareana". Simplesmente ela não conseguiu cantar, apenas tocou e ouviu a plateia entoar a canção que a popularizou em 1980 ao ser classificada para o Festival de Música Popular Brasileira, da Rede Globo, e ao final aplaudiu. A magia da total interação com o público visivelmente a emocionou, assim como a quem cantou em uníssono a música que ela compôs em 1976 com Maurício Maestro em homenagem às filhas Clara e Ana e quem mais chegar (como foi o caso de Mariana, sua terceira filha com seu marido e baterista Tutty Moreno também presente no show em Londrina).
"Os japoneses dizem que é muito importante a gente honrar os antepassados e na música isso é o mais importante de tudo. E às vezes os antepassados estão logo ali, mas ainda assim é por causa deles que a gente existe. Meu maestro soberano continua sendo Antonio Brasileiro", disse Joyce antes de começar a homenagear compositores e interpretar pérolas da MPB como "Águas de Março" (Antonio Carlos Jobim), "Medo de Amar" (Vinicius de Moraes) e "Céu e Mar" (Johnny Alf), lembrando nesta a interpretação de Elis Regina.
E em "Adeus América" (Haroldo Barbosa e Geraldo Jaques), música que ficou consagrada a partir da regravação feita por João Gilberto, fez uma homenagem a Jair Rodrigues, mesclando no meio da canção a música Deixa isso pra lá, fazendo os gestos com as mãos que o cantor fazia ao cantar "Deixa que digam. Que pensem. Que falem...".
De seus sucessos da carreira de 46 anos e mais de 40 discos, trouxe ainda "Monsieur Binot", "Pra Você Gostar de Mim" (composta com Zé Renato) e "Mistérios", que ficou eternizada na voz de Milton Nascimento.
Para fechar o espetáculo, Joyce brindou seus fãs com "Feminina", samba de 1979 que marcou o auge de sua carreira no Brasil. E o bis foi "Aquelas Canções em Mim", do último álbum, que fala do saudosismo do processo da criação musical, menos virtuais. Ao fim, só nos resta agradecer a viagem sonora de qualidade ímpar a que nos foi proporcionada.


