Jovens tiram sons de baldes e aprendem as manhas da dança de rua
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de abril de 2002
Jackeline Seglin Reportagem Local 
Vinte e uma crianças e adolescentes do Conjunto Semíramis (zona Norte de Londrina) estão envolvidas em uma oficina de dança expressiva e percussão feita de maneira próxima ao gosto e à realidade dos participantes. Coordenada pelo percussionista Guda e o dançarino Naboa, de Belo Horizonte, a oficina é um dos Projetos de Maio do Festival Internacional de Londrina (Filo) e está sendo realizada desde 3 de março, sob monitoria local de Maria Virgínia Vega Gonzales Gil. A oficina é dividida em duas turmas: são 12 crianças e adolescentes de 8 a 14 anos pela manhã e um grupo de nove jovens de 13 a 18 anos à tarde.
Guda e Naboa, respectivamente, são integrantes dos grupos SeráQuê? e Up Dance, que fazem juntos o espetáculo Quilombos Urbanos. A proposta desse trabalho é um diálogo entre as gerações, inspirado no gestual e na cultura dos guetos dos grandes centros metropolitanos. A montagem, de 1999, é resultado de pesquisas e oficinas artísticas feitas na periferia de Belo Horizonte.
O grupo SeráQuê? também é idealizador do projeto Reeditores de Arte e Cultura, que prepara jovens de 16 a 25 anos da periferia de Belo Horizonte para dar oficinas de artes integradas a crianças de 7 a 14 anos em suas comunidades de origem. O programa pedagógico apresentado pela SeráQuê? reúne aulas de dança (clássica, contemporânea e dança de rua), teatro, música e canto falado (poesia), sessões de vídeos comentados, palestras, visitas culturais, cadernos de relatórios e agenda cultural.
As atividades de dança expressiva em Londrina são coordenadas pelo dançarino Naboa, baseadas no repertório corporal dos próprios adolescentes e numa linguagem próxima a eles. A dança de rua, o hip hop, são fáceis de ser assimilados porque a linguagem é compreendida e possibilita uma série de questionamentos relacionados à realidade deles, comenta Naboa, que também trabalha aspectos como a timidez e a auto-estima dos participantes.
O dançarino pontua que a linguagem de seu trabalho não é americanizada. É uma dança de rua brasileira, com os nossos costumes. Embute rap, samba, forró, axé music. Para o professor, todos os ritmos são parentes, o que possibilita uma mistura, fazendo um trabalho de fácil entendimento e com interatividade total.
O objetivo da oficina é mostrar a dança de rua com uma linguagem nova, mais ampla. Para isso, o dançarino usa técnicas complementares em sua metodologia. Trabalhamos a linguagem corporal, a dança de rua, o alongamento, o ritmo. Tudo o que fazemos é um gancho para outra coisa, diz.
O percussionista Guda, co-fundador da SeráQuê?, trabalha os ritmos com a garotada explorando o som emitido por baldes de plástico. Guda desenvolve a introdução musical através da percussão, que para ele é um instrumento visceral que toca o corpo. Falo da percussão convencional com instrumentos, da não-convencional (baldes) e da percussão natural das partes do corpo. Com isso eles têm adquirido uma consciência ritmica.
Guda diz entender a música e a dança como uma coisa só. Buscando esse sentido, faço um trabalho de percussão ao vivo, para sentir a vibração e a pulsação do corpo. Isso fortalece o ensino da dança, analisa.
Para o participante Luiz Carlos Santos Júnior, 16 anos, a oficina é uma oportunidade de aprender novas danças e a percussão. Eu sempre gostei de dançar, inventava uns passos. Aí resolvi vir aqui para aprender. Vim por intuição, meu coração me mandou vir.
Também ficaram atraídas pela dança Camila Potio, 11, e Juliana Laureano Neves, 12. Para quem tinha apenas participado de um concurso de dança, essa era a oportunidade para Camila conhecer coisas novas. Estou aprendendo a tocar balde, atabaque e a dança de rua, conta.
Luciano Laureano, 14, encontrou na oficina uma oportunidade para trabalhar sua timidez e a expressão corporal. Não conseguia mexer o corpo direito. Tinha dificuldade para dançar nas festas. Agora estou me soltando mais. Bruno Cezar da Silva, 17, chegou ao local da oficina sem saber exatamente o que o esperava. Agora vejo que é uma forma de desenvolver o que a gente já conhece.
Encerrada ontem a participação de Guda e Naboa, a oficina prossegue até maio sob supervisão da monitora Maria Virgínia, que pretende levar à organização do Filo uma proposta de continuidade do projeto, com uma reelaboração do trabalho e a busca de incentivadores.


