Jovens na mira da lente
É a lei da vida: o jovem, com toda a sua irreverência, ainda é um ser transparente que enfrenta o rito da passagem para a fase adulta, deixando à mostra aquilo que gostaria de esconder a insegurança. O adulto se protege mais, se mascara mais. O jovem acaba sendo até mais desafiante, muito mais complexo porque ele tem o sutil e o evidente, analisa o diretor do filme De Cara Limpa, Sérgio Lerrer.
Essas características apontadas por Lerrer explicam a sua preferência em trabalhar com temáticas voltadas para a juventude e os meandros das emoções que os acometem. Sua filmografia segue por esses terrenos, e neste último trabalho a questão está ainda mais evidente. Aqui, junta-se à insegurança da travessia existencial a insegurança social. Para ele a abordagem é até mais adulta que juvenil.
O núcleo da narrativa está ligado a uma definição profissional. Ou seja, refere-se diretamente à pressão que recai sobre a garotada para que se definam numa profissão rentável, com possibilidades de se galgar degraus e outras exigências do gênero.
A pressão em seus ombros é o dobro do que existia antes, afirma Lerrer, O jovem não só tem que saber aquilo que vai fazer, como tem que dar certo, porque a concorrência está aí e é muito grande. Porém, há um fenômeno próprio de nossos tempos em que a situação extravasou-se também para os adultos, conforme sua análise. Ninguém, em sã consciência, pode se dar por satisfeito por estar num emprego seguro. Todos, ou pelo menos a maioria, vive na corda bamba.
O funcionário público não está mais garantido que fique no emprego para sempre, o da multinacional também não. O sujeito que tem um ofício não está garantido que ele não desapareça, devido a uma transformação ou invento tecnológico. O que me parece é que o cotidiano é muito mais cheio de angústias e inseguranças tanto por parte do jovem como do adulto, continua o cineasta. Soma-se a esse quadro de instabilidade a política capitalista em que o Brasil mergulhou. Aquilo que desenhava-se precário, acabou ganhando contornos ainda mais sérios. As inseguranças e ansiedades são bem maiores. De certa forma a gente retrata isso através do mundo do jovem, explica Sérgio Lerrer. (Z.C.L.)





