Jovens em busca de liberdade
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quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Fernanda Brambilla <br> <br> Agência Estado 
São Paulo - Com seu ''Na Estrada'', Walter Salles infla no espectador um desejo de se perder em estradas de destino incerto, uma sede por novos horizontes e pessoas, um grande chacoalhão na rotina. O desconhecido é bom, seu perigo, atraente.
Assim falou Jack Kerouac no livro que virou ícone da chamada geração beat nos anos 50. Sal Paradise (Sam Riley), alter ego do autor, é um jovem escritor que parte para o oeste desbravar uma América de pouca expectativa, pulsante de histórias. Lá, junta-se a Dean, inspirado em Neal Cassady, interpretado por um apaixonante Garrett Hedlund, e caem em outras estradas, de autoconhecimento e perdição.
Sete anos se passaram desde que Salles adquiriu os direitos de Francis Ford Coppola para levar Kerouac ao cinema. Na época, seguiu o conselho de chamar a atriz de ''Na Natureza Selvagem'' (2007), uma tal Kristen Stewart.
Ironicamente, Walter Salles hoje diz ter saudade de casa. Diz ter inveja de Lars Von Trier, diretor dinamarquês cuja fobia de avião o deixa recluso a estúdios. Logo Salles, de outro road movie, ''Diários de Motocicleta'' (2004)?
Atrás de locações que preservassem o cenário dos anos 1950, então, o cineasta se deixou levar para além dos Estados Unidos, no México e na Patagônia argentina. ''Na Estrada'' estreou no festival de Cannes - um lugar cheio de Messis -, como define. Mas ele, não. Botafoguense, prefere ser meio Loco Abreu.
O que pode dizer do jovem Walter que leu o livro de Kerouac?
Li em meados dos anos 1970, em pleno regime militar. O anseio por liberdade dos personagens ecoou mais forte porque a vida em casa ou na rua era bem mais estreita do que eu ansiava.
Em contraponto da experiência libertária, Sal e Dean vivem uma história de amor. Como vê isso?
Pode-se dizer que a relação entre os dois, que transita entre amor e amizade, dá transcendência ao livro. Mesmo quando Sal parece abandonar Dean, imortaliza o amigo no livro. E não deixa de ser sintomático que, na vida real, Kerouac e Neal Cassady tenham morrido jovens, em datas tão próximas.
Você escalou duas grandes atrizes, Kirsten Dunst, premiada em Cannes, e Kristen Stewart, estrela de ''Crepúsculo''. Como foi isso?
A escalação de elenco começou em 2006 e seria impossível prever o que iria acontecer com elas. O fato de o filme ter demorado tanto a encontrar financiamento criou essa situação. Kristen, por exemplo, tinha 16 anos quando a convidei e ela disse que Kerouac era seu livro de cabeceira. Ela se manteve fiel ao projeto cinco anos depois.
E como foi trabalhar com Viggo Mortensen (de ''O Senhor dos Anéis'' e ''Um Método Perigoso'')?
É um ator fora de série. Quando falamos, ele tinha engordado 20kg para o filme de Cronenberg, e não sabia se teria tempo de perder peso para Bull Lee, inspirado em William Burroughs. Dois meses depois, lá estava Viggo 20kg mais magro, com a roupa do personagem, armas, máquina de escrever. Viggo é desses atores tão completos que acabam virando coautores dos filmes.
''Na Estrada'' também aborda a volta para casa. Hoje você se divide entre o Rio de Janeiro e Europa. Qual sua definição de lar?
Confesso que tenho uma certa inveja de Lars Von Trier, que tem fobia de avião e recria universos em estúdio, na Dinamarca. Como venho do documentário e não tenho a imaginação de Von Trier, acabo atraído pelo que não conheço. Mas isso está mudando com dois filhos jovens, que eu não tinha quando comecei o projeto, em 2005. Lar para mim é o lugar onde posso estar perto deles.
Você disse que se tornou cineasta em meio às viagens constantes de seu pai, diplomata. Se tivesse tomado outro rumo, o que acha que estaria fazendo da vida?
Fotografia, sem dúvida. E seria provavelmente feliz, pela liberdade. Cinema é cada vez mais enquadrado por regras - de financiamento, produção, distribuição. A fotografia permite escapar de boa parte dessas limitações.
Em Cannes, você comparou a competição a jogar contra 21 Messis. Não se vê como Messi?
Não. Já como Loco Abreu, às vezes...
Você coleciona prêmios em festivais, mas ainda não tem um Oscar. Pensa nisso?
No dia que eu começar um filme pensando numa premiação, vou preferir parar de fazer cinema.
Acredita que todo cineasta tem de ser romântico e otimista?
Se parar para pensar, um filme é uma aventura que só vai dar certo se toda a equipe estiver olhando na mesma direção. Para isso, é necessário insuflar o desejo de contar aquela história a cada dia no set. Como não é tarefa simples, um certo otimismo ajuda...
Durante anos você curtiu carros de corrida. Ainda tem tempo para eles?
Hoje, só corro atrás de meu filho de cinco anos no campo de futebol. E geralmente, fico sem fôlego antes dele...


