A primeira safra de formandos em Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL) está pronta para a estréia do trabalho de graduação do curso. Amanhã, 20 alunos entram no palco do Teatro Núcleo I para encenar a tragédia grega ''As Troianas'', de Eurípedes, numa tradução de Jean-Paul Sartre. O espetáculo será apresentado de amanhã a quinta-feira, às 20h30.
Além de ser a montagem de formatura dos alunos, ''As Troianas'' marca o retorno de Nitis Jacon à direção. O último trabalho da diretora foi na montagem ''Carmelita Adeus'', em 1994, com o grupo Proteu.
A peça, escrita por Eurípedes há mais de 2400 anos, narra os horrores dos vencidos, dando visibilidade a uma galeria de mitos femininos: Hécuba, Helena, Cassandra e Andrômaca, mulheres que choram seus mortos e resistem às pretensões imperialistas de Atenas (ver box). A adaptação de Sartre ressalta o caráter político de contestação e condenação da guerra, abordando a resistência da Argélia contra o colonialismo francês e o colonialismo norte-americano no Vietnã.
Nitis Jacon diz que a peça é repleta de indagações e dúvidas. Mas uma delas é inquestionável: a intolerância das guerras de conquista e do imperialismo. ''O espetáculo coloca em cena a tragédia dos vencidos, no caso, as troianas, sobreviventes, mas submissas a uma ordem'', comenta a diretora.
''As Troianas'' começou a ser trabalhado em setembro. Nitis Jacon avalia que essa tragédia oferece a oportunidade do exercício do trabalho de ator, ainda mais para uma turma de bacharelado em interpretação. Bastante extensa, a peça foi montada sem cortes (o espetáculo tem 1h45 de duração). Partindo desse fator, a direção optou por trabalhar a agilização da montagem. ''A peça não tem ação dramática, é toda interior, emocional. Então, usamos recursos, como o coro de evocações, para ter uma linha de interpretação ágil'', explica. O grupo baseou-se ainda na visceralidade do teatrólogo Constantin Stanislavski, utilizando elementos brechtianos para abrir e fechar o espetáculo (na entrada, por exemplo, os soldados revistam a platéia).
O elenco de ''As Troianas'' é formado por Adriano Moraes (soldado e coro das evocações), Ana Pilchowski (Hécuba), Alexandre Mendes (Menelau e coro das evocações), Camila Oliveira (Cassandra e coro das troianas), Camila Prietto (Helena e coro das troianas), Ed Sombrio (Taltíbio e coro das evocações), Lucas de Lucca (Poseidon e coro das evocações), Marcelio Guaita (soldado e coro das evocações), Robson Betiati (coro das evocações e vocal), Tatiana Zalla (Palas Atena e coro das troianas), Vanessa Curty (Andrômaca e coro das troianas), Barbara Salvatori, Elisângela Bortotti, Carla Modesto, Isabella Maria, Margareth Almeida, Mariana Amargoz, Thais D'Abronzo e Valéria Mazzer (coro das troianas).
A sonoplastia é executada ao vivo pelos atores Thaís D'Abronzo, Robson Betiati, Camila Paes e pelo coro das troianas (com apoio de Elimar Machado). A iluminação foi concebida por Fernando Jacon e Maurício Marques. O cenário, que mostra as muralhas de Tróia destruídas, foi construído basicamente com sucata e material reciclado. A responsável pela concepção é a cenógrafa Laura Carone, com apoio do Espaço Cenográfico São Paulo.
Os figurinos foram criados e confeccionados por Samuel Abrante, do Rio de Janeiro, e pelas estagiárias do curso de Estilismo e Moda da UEL, Rosimeiri Naomi, Sílvia Gomes, Stefânia Rosa, Karina Cuellar, Paula Hatadami e Adriana Azevedo. ''Trouxe a técnica do figurino para teatro e trabalhamos juntos'', observa Abrante, que já havia realizado uma oficina de figurinos na cidade.
A professora Nitis Jacon avalia que o espetáculo atingiu um bom resultado. ''Foi um processo difícil, mas os meninos tiveram um desenvolvimento muito satisfatório, superaram as dificuldades com eles mesmos e comigo''.
A maioria dos atores têm alguma experiência em grupos de teatro da cidade. Mas ninguém esconde a ansiedade pela estréia de ''As Troianas'' e pela formatura. Elisângela Bortolotti traduz a expectativa do final de curso como um momento de união de todos os alunos, que estão concluindo uma etapa. ''Essa ansiedade tem um peso'', diz.
Os atores tiveram que superar certas dificuldades no trabalho. ''O entendimento da obra é complicado, assim como falar esse texto em cena'', analisa Elisângela. Para Vanessa Curty, a entrega do ator ao processo e a relação em grupo foram os obstáculos mais difíceis de ultrapassar. ''Isso até alimentou a vontade de um mostrar para o outro o resultado do trabalho. E o melhor foi ver que no final nos unimos e fizemos tudo juntos''.
Quanto aos novos planos, boa parte do elenco está vinculada a projetos apresentados à Lei Municipal de Incentivo à Cultura e aguarda a relação dos aprovados para montar espetáculos no ano 2002. Outros têm idéia de mudar-se de Londrina para seguir a carreira artística ou até tentar novas experiências.


q''As Troianas'' espetáculo da 1 turma de Artes Cênicas da UEL (Turma Cacilda Becker). Estréia somente para convidados: amanhã, às 20h30, no Teatro Núcleo I (Rua Quintino Bocaiúva, 1243). Prossegue até o dia 13 mesmo horário e local. Ingressos: R$ 10,00 (R$ 5,00 para estudantes e aposentados). Produção Executiva: Adriano Moraes.

mockup