JOVEM TALENTO - Criatividade para fazer cinema
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terça-feira, 25 de maio de 2004
Fernanda Bressan<br>Reportagem Local 
Daniel Fernandes Poupe tem 25 anos, é solteiro, trabalha como lixador em uma fábrica de móveis e ganhou prêmio de ''Melhor Roteiro'' na Mostra Londrina de Cinema, realizada em maio deste ano na cidade. Isso mesmo, Daniel Poupe produziu um curta-metragem com duração de 8 minutos sobre a vida de uma senhora conhecida como dona Maria que sobrevive e mantém a família vendendo minhocas há 25 anos à beira da rodovia em frente à Vila Marízia, em Londrina. O filme foi produto do Projeto Repórter Cidadão, da Rede da Cidadania, que possui apoio da Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic. O filme teve a colaboração de Helena Godoy, amiga de Daniel que também integra o grupo.
No projeto desde 2002, Daniel comenta que nunca imaginou que pudesse produzir um filme. ''Aproveitei bastante o projeto. Tenho facilidade de aprender e pretendo fazer outros filmes'', revela. Um já está a caminho. Daniel gravou imagens no bairro mas falta agora editá-las. A dificuldade é que o Repórter Cidadão está parado por falta de recursos este ano. A verba municipal ainda não foi autorizada. ''Quero comprar um computador para poder fazer tudo aqui em casa mesmo'', almeja. Até porque, a intenção dele é encaminhar o filme novamente para a próxima edição da Mostra de Cinema. ''Não esperava ganhar o prêmio, foi uma surpresa'', recorda. Ele procura mostrar o lado bom do bairro em suas filmagens. ''Lá tem só uma meia dúzia que estraga, mas o resto é bom'', contabiliza.
Daniel detalha que o mais complicado foi gravar as imagens para o curta-metragem porque o trabalho tinha que começar bem cedo. ''Tinha que acordar de madrugada'', salienta. Nas gravações, vários ''clientes'' também foram ouvidos. Eles compram as minhocas a caminho da pescaria e garantem que é bem mais fácil adquiri-las assim que ficar ''cavando a terra''. Daniel garante que pegou gosto por todas as etapas de produção, do roteiro às filmagens, passando pelas entrevistas e edição. ''Gostaria de fazer só isso, mas falta investimento'', pondera.
Sem o projeto este ano, a rotina de Daniel se resume a ir do trabalho para casa e da casa para o trabalho. ''Às vezes fico fazendo hora-extra na fábrica'', acrescenta. Ele observa que o Repórter Cidadão foi uma maneira de incrementar a cultura em sua vida. ''Se eu não estivesse lá, estaria parado'', aponta. Daniel encerrou seus estudos quando concluiu o ensino médio. ''Queria muito fazer letras porque gosto de escrever, mas não tenho dinheiro para pagar faculdade ou cursinho'', lamenta.
Aliás, o ''cineasta'' conta que já escreveu um livro de poesias quando estava estudando. ''A professora viu que eu escrevia e dava para as pessoas e sugeriu que eu reunisse todas para formar um livro. Eu já fiz um boneco mas falta um lugar para editar'', afirma.
O responsável pelo Repórter Cidadão é o jornalista Luciano Paschoal. Ele diz que desde 2002 passaram cerca de 20 pessoas entre 16 e 28 anos pelo projeto. Destinado a jovens em situação de risco, o projeto selecionou pessoas de vários bairros da cidade através de redações. Para abrigar mais pessoas, seria necessário uma melhor estrutura e mais verba. A expectativa de Paschoal é que o projeto continue recebendo apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura. ''O grande problema da periferia é a falta de comunicação. Eles têm informações mas desconhecem maneiras de se comunicar'', enfoca. Nesse quesito, o jornalista destaca que por meio do audiovisual é possível atingir a todos. ''É uma maneira de passar informações para todas as classes'', detalha.
A expectativa de Paschoal é criar núcleos de comunicação em diversos bairros de Londrina. Para ele, estabelecer esse vínculo de comunicação e informação é uma maneira de aproximar as comunidades através de uma única linguagem, acessível a todos.


