Jovem senhora dos bons
costumes fonográficos
Barato pessoal, vontade de conquistar um público mais caretinha ou prenúncio de guinada na carreira? Sabe-se lá o que é, mas uma coisa é certa: ‘‘Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo’’ é um disco tão redondinho e tão convencional que passaria batido não fosse a proprietária ser quem é, ou seja, Cássia Eller. A virulência sonora de outros discos está momentaneamente arquivada. A voz não mais troveja como antigamente. Pelo menos nesse trabalho, a imagem de marginal ficou apenas na foto da capa do disco - um modelão forte, tipo ‘‘acabei de fugir do hospício’’. Guitarras aflitas, poucas. Cordas, sim, há!
‘‘Com Você...’’ é um disco cheio de pontos de interrogação. O que Cássia Eller, com voz ‘‘doce’’, algumas músicas frágeis e arranjos quadradinhos, quer? Se é causar indignação, conseguiu. É bem capaz que, desta vez, as comadres encostem cotovelos nas cercas de balaústre e comentem que, pelo jeito, Cássia Eller está tomando jeito, que no fundo, no fundo ela sempre foi uma boa menina e que esse dia mais cedo ou mais tarde chegaria. E chegou.
Trocando em miúdos, o sétimo disco de Cássia Eller é tão inócuo que papai, mamãe e filhinho podem ouvir juntos, sentadinhos na sala, após chegarem da missa dominical. ‘‘Com Você...’’ é muito sisudo para alguém que nos seis trabalhos anteriores sempre vinha com vontade de acrescentar algo nervoso e convincente ao pobre mundinho pop brasileiro. Desta vez, Cássia está menos marginal, menos apocalíptica; está, digamos, uma jovem senhora dos bons costumes fonográficos.
Não que seja um disco ruim, mal produzido ou coisa assim. Ao contrário, vem com uma fina estampa. Mais parece um disco de Gal Costa ou Maria Bethânia, duas senhoras da MPB. Acontece que é cedo para Cássia vestir esse modelão. Entretanto, as vibrações marginais, por mais encalacradas que se apresentem, ainda se fazem sentir aqui ou ali. E olhe lá!
‘‘Aprendiz de Feiticeiro’’ (Itamar Assumpção), mesmo revestida com um arranjinho nordestino safado, é uma das salvações do disco. Outro bom momento é ‘‘Pedra Gigante’’ (Gilberto Gil-Bené Fonteles). Um certo Luiz Capucho também contribui para deixar a coisa menos formal com a sua ‘‘Maluca’’. Bem como Nando Reis, aliás o produtor e uma espécie de mentor intelectual do disco, que se mostra um hábil letrista em ‘‘O Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)’’.
Como se trata de um trabalho muito mal resolvido, dizer que ‘‘Com Você...’’ é um disco de altos e baixo não é chover no molhado; chega a ser um elogio. Há muita coisa boboca diluída entre pepitas. A começar pela babaquinha ‘‘Mapa do Meu Nada’’, de Carlinhos Brown. Não podemos ser injustos com Marisa Monte e Moraes Moreira - ‘‘Palavras ao Vento’’ é vazia tanto em letra quanto em Melodia. Ah, sim, Caetano ‘‘Sozinho’’ Veloso enverga toda sua desinspiração atual na sonsa ‘‘Gatas Extraordinárias’’.
Agora, por mais convencional que possa ser, ‘‘Com Você...’’ já vale a pena pela saborosíssima ‘‘Esse Filme Eu Já Vi’’, de Luiz Melodia, por sinal a última faixa. No melhor estilo Big Band, Cássia se apresenta como uma aplicada e notável crooner. De se ouvir e ouvir.
Moral da história: não há moral da história. As respostas, por ora, não podem ser definitivas. Só o próximo disco vai dizer se Cássia realmente deu uma guinada em sua carreira ou se ‘‘Com Você...’’ era apenas um capricho. E se porventura na capa de seu oitavo disco estiver ela vestida de tailleur e com coque (ou bobes) nos cabelos, ao contrário do atual visual ‘‘ah, eu tô maluca’’, fiquem esperto: Cássia pode estar blefando. (A.M.J.)

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