JOVEM LOBO-DO-MAR
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de fevereiro de 2001
André Bernardo TV Press 
O ator Marcos Palmeira sempre se destacou pelo jeitão cool. De fala mansa e ar tranquilo, este carioca de 37 anos nem parece ser artista da Globo. Nos últimos dias, Marcos tem procurado disfarçar o mal-estar provocado pelo rompimento com a atriz Ana Paula Arósio. Para superar o fim de uma relação que durou um ano e cinco meses, o ator mergulhou de cabeça no trabalho. Em Porto dos Milagres, Marcos interpreta Guma, um rude pescador que vive uma paixão adolescente por Lívia, personagem de Flávia Alessandra. Para interpretá-lo, estou resgatando sentimentos juvenis, como pureza e ingenuidade. Já faz tempo que passei por isso e esse resgate está sendo muito interessante, avalia.
Além de compor o perfil psicológico do personagem, Marcos Palmeira aproveitou os 20 dias em que passou na Ilha de Comandatuba, na Bahia, para se inteirar do dia-a-dia dos pescadores da região. Lá, chegou a se arriscar algumas vezes em alto-mar em companhia de velhos pescadores. Paralelamente ao aprendizado da pescaria, Marcos teve o cuidado de pesquisar sobre religiões afro-brasileiras, como umbanda e candomblé. A primeira providência, inclusive, foi fazer oferendas a Iemanjá, madrinha de Guma em Mar Morto, um dos romances de Jorge Amado que deu origem à novela. Estou tratando do assunto com o maior respeito. Afinal de contas, não sei onde estou mexendo, ressalva.
Como você se sente ao interpretar pela primeira vez um personagem típico do universo de Jorge Amado?
Quando recebi o convite, topei na hora. Sempre quis trabalhar numa novela adaptada da obra de Jorge Amado. Principalmente porque eu já tinha lido Mar Morto um dos livros que deu origem à novela e achei a história linda. É daquelas histórias de que você não ouve mais falar nos dias de hoje. A novela tem tudo para dar certo. O elenco está empenhado em fazer o melhor possível. Ninguém quer que Porto dos Milagres seja apenas mais uma novela. Só espero que o público embarque nessa...
A responsabilidade de substituir Laços de Família, que registrou uma média de 54 pontos na última semana, chegou a assustar?
Este é o tipo de responsabilidade que procuro não carregar nas costas. Pessoalmente, não me preocupo com os números do Ibope. Sempre tento fazer o melhor possível, independentemente do horário da novela ou da média de audiência. Já imaginou se eu tiver de me esforçar mais ou menos para determinada novela dar isto ou aquilo de audiência? Eu ficaria maluco... A única coisa que espero é que Porto dos Milagres faça tanto ou mais sucesso que Laços de Família. Mas você nunca sabe o que vai acontecer e como o público vai reagir...
Pode-se dizer que o elenco de Porto dos Milagres é um dos trunfos para manter a audiência de Laços de Família?
Sinceramente, acho que sim. O que observei nestes primeiros dias de gravação é que todos estão trabalhando com muito afinco e dedicação. Não há ninguém trabalhando com os pés nas costas. Não há ninguém interessado apenas em defender o emprego. Todos estão interessados em fazer um trabalho de alta qualidade técnica e artística. Isso motiva a todos. Novela é um processo longo, difícil, cansativo. Para dar certo, todos atores, autores e diretores têm de se esforçar coletivamente. Caso contrário, não tem jeito. Neste caso, posso garantir que começamos com o pé direito.
Quando você leu o livro, o que mais chamou a sua atenção no personagem?
O Guma tem uma relação muito forte com Iemanjá. Tudo o que ele pede, acontece. Ele chega a ter uma imagem de Iemanjá tatuada no braço. O livro me abriu um universo completamente novo. Acho o candomblé muito interessante e estou ansioso por saber como isso vai repercutir na mídia. É complicado mexer com a religião dos outros. Por isso mesmo, estamos tratando o assunto com o maior respeito. Comecei a usar guias e já joguei umas flores para Iemanjá. Estou procurando respeitar tudo o que faço para que não tenha problemas. Ainda não sei direito onde estou mexendo...
Você chegou a fazer algum tipo de pesquisa sobre umbanda e candomblé?
Fiz. Como não tenho uma religião específica, costumo dizer que estou aberto para coisas positivas. Mas, de todas as religiões que conheço, o espiritismo é a que eu mais gosto. E a religião com que mais me identifico também. Já vivi os dois lados da fé. Já pedi muito e nada aconteceu. Como também já pedi muito e meus pedidos foram todos atendidos. Acredito no relacionamento entre as pessoas, no pensamento positivo e na força da natureza. O importante é ter fé. E respeito por todas as religiões.
À primeira vista, o Guma faz lembrar o jeito rude de personagens como o Tadeu, de Pantanal, e o João Pedro, de Renascer. Você tomou algum cuidado para não se repetir?
Sinceramente, não. Sempre acho que modifico uma coisa a cada novo trabalho. O Guma, por exemplo, é o personagem mais difícil que já fiz até hoje. A realidade do Guma é completamente diferente da minha. Eu o considero um guerreiro que luta por melhores condições de vida para os moradores daquela comunidade. Não que eu não seja um sujeito engajado. Pelo contrário. Gosto de estar sempre participando de alguma coisa. De certa forma, também sofro pela injustiça social. A diferença é que o Guma leva isso adiante. Ele é do tipo que vai à luta.
Qual foi a maior preocupação na hora de compor o Guma?
A minha maior preocupação foi emagrecer. Perdi alguns quilos, mas não sei ao certo quantos foram. Quando reli o livro, achei que o Guma era bem mais jovem e leve que eu. Naturalmente, gosto de nadar, correr, jogar bola... Mantive minha rotina normal e resolvi adotar uma alimentação mais saudável. Não adianta malhar o corpo se você não se alimenta bem. De uns tempos para cá, passei a comer muita fruta, salada e peixe. Aliás, nunca comi tanto peixe quanto agora...
Como foi a experiência de gravar 20 dias na Ilha de Comandatuba, no litoral baiano?
Maravilhosa. Por mim, não sairia mais de lá. Para gravar, não tem nem comparação. Eles construíram uma cidade cenográfica em Comandatuba que não tem mais tamanho. E, como precisamos do mar para gravar, voltaremos para lá a cada 45 dias. Gostei de fazer Torre de Babel e Andando nas Nuvens. No entanto, nada se compara à sensação de liberdade que a natureza proporciona. As novelas que têm muitas externas agradam mais ao público. A experiência é mais prazerosa para todo mundo. Para quem faz e para quem assiste.
Você é considerado um dos atores mais bonitos de sua geração. Como você lida com o rótulo de galã?
Sempre disse que os personagens são mais interessantes que os atores que os interpretam. O sucesso do Guma está acima do sucesso do Marcos Palmeira. Não me acho bonito nem vejo como galã. Aliás, não tenho a menor pretensão de ser classificado de galã. Sou apenas um ator defendendo o seu trabalho. A minha preocupação com estética é zero. Não me preocupo em saber se estou feio ou bonito. Só me preocupo em saber se estou fazendo bem o meu trabalho. Mesmo assim, fico envaidecido. Às vezes, faz bem para o ego saber que interesso às pessoas de alguma forma.
Você ainda é muito assediado pelo público?
Faço questão de levar uma vida absolutamente normal. Não me escondo de nada nem de ninguém por ser quem sou. Sou uma pessoa simples. Gosto de dançar forró, tomar uma cerveja, jogar uma pelada ou ir ao Maracanã para assistir a um jogo do Vasco. Levo a sério o que faço. Mas também levo a sério uma vida simples. Gosto quando as pessoas me pedem autógrafo ou conversam comigo nas ruas. Se você vestir a carapuça do sucesso, o ego vai crescer a ponto de não deixá-lo em paz. Isso é perigoso e, infelizmente, muito comum na tevê.


