A Jovem Guarda ensaiou uma volta na última temporada. Uma volta não, uma tentativa de reabilitação, uma reconstituição de sua história quase sempre relegada à memória de seus participantes.
Amanhã, o revival ecoa em Londrina com uma noite especial dedicada ao movimento a partir de 22 horas no MPB Bar (Av. JK, 426). Juntos pela primeira vez, os músicos Mário (teclado), Bibo (baixo) e Vitinho (bateria) e as vocalistas Marta Santos e Denise Cotrin irão apresentar sucessos de Roberto Carlos, Eduardo Araújo, Celly Campello, Os Vips, Os Incríveis, Renato e Seus Blue Caps, Vanusa, Wanderléa, Erasmo Carlos e Golden Boys.
A retrospectiva das ‘‘jovens tardes de domingo’’ no último ano começou com a coleção de 24 CDs duplos resgatados pela Sony. Depois veio a publicação do livro ‘‘No Embalo da Jovem Guarda’’, de Roberto Pugialli. Já no final do ano chegaram ao mercado uma série de 25 CDs da EMI e o alentado volume biográfico ‘‘Jovem Guarda – Em Ritmo de Aventura’’, de Marcelo Fróes. Para coroar a guinada retrô, a cantora Adriana Calcanhotto emplacou em trilha de novela uma versão de ‘‘Devolva-me’’, hit de Leno & Lilian.
O tema, porém, não parece esgotado. Outros títulos poderão pular dos arquivos das gravadoras e dos prelos das editoras nas próximas estações. O próprio Fróes escreve no texto de apresentação de seu calhamaço que ‘‘muitos foram os livros anunciados por artistas, críticos e pesquisadores’’ ao longo dos últimos 30 anos, desde o fim do célebre programa de TV comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa em 1968.
O memorialismo, contudo, vai soar insatisfatório se não for acompanhado de um ensaio crítico e definitivo sobre o movimento. Até agora, nenhum autor analisou a inserção do iê-iê-iê como fonte do tropicalismo e sua paternidade sobre o cancioneiro brega. Toda a bibliografia dos anos dourados do pop nacional limita-se a registrar fatos e fotos, a começar pelo livro de Froés cuja narrativa documental enfileira nomes de artistas e discos a granel entupindo as páginas com informações sobre a quantidade de cópias vendidas por fulano ou quem subiu ou desceu do primeiro lugar das paradas.
A obra, que tomou sete anos de trabalho do autor, recapitula desde a fase pré-jovem guarda até o declínio da onda com o surgimento dos baianos tropicalistas. O livro é apinhado de curiosidades. Lembra, por exemplo, que Jô Soares aderiu ao movimento gravando a música ‘‘Vampiro’’ num compacto. Conta que Cauby Peixoto gravou aquela que talvez tenha sido a primeira composição brasileira em ritmo de rock – ‘‘Rock’n’Roll em Copacabana’’.
Revela que Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Tim Maia participaram juntos de um grupo chamado The Sputniks. Recorda que Roberto e Erasmo preferiam o rock americano ao rock inglês, razão pela qual o segundo gravou uma música chamada ‘‘Beatlemania’’ em seu álbum de estréia atacando os quatro cabeludos de Liverpool. O livro ainda revive um modismo da época, quando vários artistas tratavam de conseguir discos importados às pressas para gravar versões em português dos Beatles antes mesmo que os originais fossem lançados no mercado brasileiro.
Não foram esquecidos também os escândalos, as brigas, as rivalidades e a obsessão dos fãs que marcaram o ciclo inaugural do rock verde-amarelo. Deu o que falar, por exemplo, o comportamento irreverente suscitado pela improvável associação entre o iê-iê-iê e a Igreja Católica. Enquanto no Rio de Janeiro, o grupo Brazilian Bitles deixava os religiosos de cabelos em pé ao se apresentar dentro de uma paróquia acompanhado por menininhas que dançavam sobre o altar, em Curitiba eram os padres que coravam os fiéis ao cantar versões de hits da jovem guarda durante a missa e ainda proclamavam na hora da consagração: ‘‘hóstia, eu te adoro, mora!’’.
Foi traumática também uma ameaça de morte sofrida por Wanderléa, o que a obrigou a cancelar vários shows pelo país acumulando um prejuízo de 15 milhões de cruzeiros. A ameaça fora feita por um fã apaixonado que a havia pedido em casamento e ficara indignado com a negativa da cantora. Foi o ápice da histeria em torno dos astros da jovem guarda, que tinha em torno de Roberto Carlos uma febre similar à da beatlemania.
Mas o iê-iê-iê durou pouco, de 1965 a 1968, período em que o programa ‘‘Jovem Guarda’’ esteve no ar na TV Record. Nem por isso, o atual revival exclui da celebração artistas surgidos antes e depois do apogeu da vertente. O pacote de 25 CDs duplos da série Bis, recém-lançado pela EMI, exagera na abrangência incluindo de ídolos pré-jovem guarda como Betinho, Ronnie Cord e Tony & Celly Campello a cantores posteriores de duvidosa cepa como Paulo Sérgio, Jean Carlo e Cláudio Fontana.
Estão presentes ainda nomes pouco representativos como The Supersonics, Os Carbonos e The Angels. A fidelidade ao movimento fica por conta de Wanderléa, Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Golden Boys, Martinha, Trio Esperança e alguns poucos. Duas coletâneas intituladas ‘‘Na Onda do Iê-Iê-I꒒ completam a fornada com tropeções na escolha dos elencos. Mas amanhã, o revival londrinense promete restaurar preciosidades do baú.

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