Jovem das antigas
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Luana Borges<br>TV Press 
Aos 34 anos, Caio Blat já é um veterano. Na televisão desde 1991, quando estreou em "O Mundo da Lua", o ator acumula cerca de trinta projetos, entre novelas, minisséries, séries e telefilmes. E justamente por dominar os mecanismos do veículo, o intérprete de José Pedro, em "Império", mantém uma postura serena em relação à profissão.
Bem articulado, ele preza pelas boas relações com os colegas de elenco e ressalta o fato de, na novela de Aguinaldo Silva, trabalhar com um núcleo composto por atores com os quais, em sua maioria, ainda não havia contracenado. "É difícil isso acontecer porque conheço todo mundo. E foi um encanto conhecer Lília Cabral, Andréia Horta e Alexandre Nero. O Nero costuma falar que eu tenho idade para fazer o pai dele, que ele cresceu me vendo na televisão e agora faz o meu pai", brinca, citando o ator que interpreta José Alfredo, pai de seu personagem na história.
Caio experimentou o gosto do sucesso cedo. Quando tinha 12 anos, atuou em "Éramos Seis", no SBT, e era comum ser abordado por pessoas pedindo autógrafo. Mas, em seguida, sentiu na pele a dificuldade que é fazer a transição da infância e adolescência para a fase adulta quando se trabalha como ator. "É muito comum a gente ver crianças e adolescentes que são ídolos e que depois não continuam na carreira. Então, eu tinha dúvida se era um 'hobby' de infância ou se viria a ser uma profissão mesmo", recorda.
Por isso, Caio chegou a cursar Direito e Psicologia. Mas os estudos eram sempre interrompidos por convites para novelas e outros projetos. "Depois que me mudei para o Rio de Janeiro, aos 18 anos, fiz 'Chiquinha Gonzaga' e me contrataram para ficar por uns anos. Foi quando vi que realmente não tinha mais volta", recorda.
Você costuma viver tipos fortes e com características marcantes na tevê, como um monge budista em "Joia Rara", um indiano em "Caminho das Índias" e um anjo em "Um Anjo Caiu do Céu", entre outros. O que você ressalta em José Pedro, de "Império", um personagem com uma "pegada" mais naturalista?
Acho que todo trabalho é especial e esse foi muito. É uma novela que tem uma aceitação grande do público, a gente sente uma vibração muito forte nas ruas, tem muita torcida. E o personagem é maravilhoso porque tem um caráter dúbio. Com essa competição pela herança, ele é capaz de trair os irmãos. José Pedro não é um vilão clássico.
Em que sentido?
Ele é, na verdade, um personagem rancoroso, fraco, inseguro, e isso faz dele uma pessoa muito perigosa. Sem ser um vilão clássico, ele se tornou uma figura, às vezes, patética, por causa dessa dependência que tem das mulheres, ele faz qualquer coisa que as mulheres mandam. E, ao mesmo tempo, é perigosíssimo porque, dentro dessa insegurança dele, desse sentimento, é capaz de fazer qualquer coisa. Então, para mim, foi um personagem muito rico e difícil de fazer porque é perigoso e, ao mesmo tempo, fraco. Toda vez que quer mostrar seu valor, faz algo errado porque é fraco, carente e dependente. Acaba soando mais patético do que como um vilão poderoso.
Que referências você usou na construção desse papel?
Foi como se a gente adaptasse uma história clássica, de cavalheiros, de reis e rainhas, para um tempo contemporâneo. Então, foi engraçada essa transposição, parece um pouco Shakespeare. Aquele imperador que só se veste de preto, o filho que odeia o pai e que quer tomar o trono dele. O filme "O Leão no Inverno" é uma referência grande para a família do meu papel e é exatamente isso: uma história de um trono que está sendo disputado. Também tivemos um período de preparação com Eduardo Milewicz. Foi durante esses ensaios que a gente foi construindo as relações da família.
Depois de quase 25 anos de carreira na tevê, o que faz você aceitar participar de um projeto?
Atualmente, as pessoas que estão envolvidas no projeto. Mais importante do que o resultado são os nove meses de convivência, que eu acho que precisam ser muito prazerosos. Hoje em dia, o que mais levo em consideração é saber se é um grupo de diretores que gosto, que acredito, com os quais eu me sinta à vontade, onde exista uma troca, onde eles estejam dispostos a ouvir também as nossas ideias sobre o personagem e deixem a gente bastante livre para trabalhar, além do elenco envolvido. Isso é o que mais me interessa porque, afinal de contas, a novela fica uma hora no ar, mas nós ficamos nove horas por dia juntos.
Antes, suas prioridades eram outras?
Acho que, durante muitos anos, eu queria ter personagens bons, queria estar em histórias boas. Mas, atualmente, já fiz de tudo. Não tenho mais tanta ambição assim em relação ao personagem. Acho que você pode fazer um bom trabalho em qualquer papel, em qualquer história.
Você, inclusive, costuma interpretar tipos variados e não ficou marcado por nenhum perfil de personagem específico. Foi uma busca sua ao longo da carreira?
Acho que isso foi uma coisa que precisei batalhar um pouco no início. Logo que cheguei na Globo, fiz "Chiquinha Gonzaga" e "Andando nas Nuvens" e pintou uma imagem de galãzinho romântico, de mocinho, eu era campeão de cartas. Naquele momento, percebi que existia o perigo de ficar marcado por esse tipo. Mas fiz uma série de trabalhos muito provocativos no cinema, como no filme "Cama de Gato", em que eu fazia um estuprador, e no teatro também. Aí, imediatamente, essa imagem se quebrou. Fui chamado para fazer vilões e personagens de composição de comédia, como o Abelardo Sardinha, de "Da Cor do Pecado". Isso abriu a minha gama. Acho que a maior conquista que tenho nesses anos é essa, de poder fazer vários tipos. Acho essa variação a coisa mais saudável.
Mas, até atingir esse patamar, você passou por altos e baixos. Como lida com as inconstâncias inerentes à carreira de ator?
Acho que passei por muitas fases. Quando fiz "Éramos Seis", foi um sucesso muito grande. As pessoas me pediam autógrafo na rua, me reconheciam, me mandavam carta. Eu tinha 12 anos. Dois, três anos depois, eu saí do ar e voltei a ser um anônimo. Então, percebi que a fama é uma coisa que vai e volta, que pode variar. Não dá para acreditar muito nisso, não dá para esperar muito isso. E mesmo na Globo por muitos anos, logo depois que fiz o Abelardo Sardinha, em "Da Cor do Pecado", que foi um grande sucesso, fui dispensado durante um tempo. E foi um susto muito grande porque eu tinha saído de casa, contratado, com tudo garantido e, pela primeira vez, estava na rua, depois de um grande sucesso. Em nenhum momento nessa carreira a gente pode achar que está com o jogo ganho porque o tempo inteiro ela é instável, o tempo inteiro ela pode te surpreender.
E como você reagiu?
Acabou sendo um ano mágico para mim porque eu fui chamado para fazer os filmes "Batismo de Sangue", "Proibido Proibir", "Baixio das Bestas" e "O Ano que Meus Pais Saíram de Férias". Foi um ano que passei inteiro fazendo cinema, ganhei vários prêmios, comecei a ser chamado para fazer um monte de filmes e a Globo me chamou de volta. Eu não tinha nem tempo de fazer novela porque estava com um monte de filme para fazer. Na verdade, esses momentos de crise são onde a gente se reinventa, se redescobre e enxerga outras possibilidades que antes não via porque estava focando só em um lado da carreira.
Mas ultimamente você não tem ficado grandes intervalos fora do ar. Tem dificuldade em negar convites na tevê?
Tenho um certa dificuldade em falar "não". Às vezes, sinto que estou exausto, que precisaria descansar. Mas aí o diretor é bacana, o texto e o personagem também e acabo emendando. Isso aconteceu duas vezes seguidas. Emendei "Lado a Lado" com "Joia Rara" e "Joia Rara" com "Império". E agora tenho certeza que preciso dizer "não". Por enquanto, ainda não me chamaram para nada. Mas, se pintar um pedido para emendar, realmente vou precisar descansar. Tenho filmes no cinema para lançar.
Quais?
A novela acaba dia 13 de março e, no dia 20, já estreia o filme "Ponte Aérea", sobre um casal em que um mora em São Paulo e o outro, no Rio de Janeiro. É um filme sobre relacionamento e fala do fato da nossa geração ter uma dificuldade muito grande para se envolver e se entregar ao amor. Tem o "Califórnia", da Marina Person, que se passa nos anos 1980 e eu faço um personagem com Aids. Também tem o "Muitos Homens Num Só", com Vladimir Brichta e Alice Braga, e o "Meus Dois Amores", do Luiz Henrique Rios, que é baseado em um conto de Guimarães Rosa.


