LIVRO -

Jotabê Medeiros faz um mergulho no universo familiar

O jornalista conta em livro a trajetória de seu pai, migrante nordestino que completou 102 anos

Marcos Roman - Grupo Folha
Marcos Roman - Grupo Folha

Após escrever as biografias “Belchior – Apenas um rapaz latino-americano" (2017) e “Raul Seixas – Não diga que a canção está perdida” (2019), ambas lançadas pela editora Todavia, o jornalista Jotabê Medeiros esmiúça a trajetória de seu próprio pai no livro “O Último Pau de Arara”. A obra , que deverá ser lançada pelo Grafatório, de Londrina, conta a história de uma família de migrantes nordestinos que em um pau de arara desce para o Sul ou o Sudeste do país, como muitos fizeram durante o século XX. Ainda em fase de editoração, o livro depende de financiamento coletivo para ser publicado. 


A viagem durou nove dias sob a lona de um caminhão, com doze crianças sobre sacos de sal, saídos do cariri paraibano rumo ao Norte Novíssimo do Paraná, à cidade de Cianorte. Medeiros fez este trajeto com seus 12 irmãos em 1965, quando ele tinha apenas três anos de idade. Na época em que os chamados paus de arara (caminhões adaptados para o transporte de passageiros) eram oficialmente proibidos de transitar na rodovia Rio-Bahia pelo governo militar, a família migrava clandestinamente de um sertão ao outro, forjando uma nova vida para os Medeiros em um cenário culturalmente diverso. 


Entre a biografia, a historiografia e o ensaio, o livro desenha os improváveis destinos dos membros daquele clã que mais tarde, se tornaria ainda maior, com 20 irmãos, 45 netos, 23 bisnetos, dois trinetos. A família, que se estabeleceu inicialmente no noroeste paranaense, segue crescendo e espalhou-se pelo mundo. “Com o tempo, fomos vistos alistando-nos na Legião Estrangeira, ensinando português na cidade japonesa onde viveu Bashô, dividindo apartamento em um prédio invadido em Madri, tomando vinho com críticos de jazz no Carnegie Hall”, afirma o jornalista.  


Jotabê Medeiros: "Descobri coisas fascinantes sobre meu pai, é uma história interessante que atravessa o século XX, ele tem 102 anos agora"
Jotabê Medeiros: "Descobri coisas fascinantes sobre meu pai, é uma história interessante que atravessa o século XX, ele tem 102 anos agora" | Renato Parada/ Divulgação
 

Medeiros ressalta que o livro é, sobretudo, um exercício de admiração à figura de seu pai: um homem que hoje conta com 102 anos, dono de um ethos singular, violento mas com rompantes de ternura, capaz de atitudes súbitas e com um passado obscuro. De acordo com o jornalista, o desejo de escrever a história dele é recente, surgiu em 2017, após a visita a uma tia que mora em Recife. "Me dei conta que a história dele era cheia de lacunas. Ele é uma pessoa muito reservada. Nunca conversou muito sobre o passado dele com a gente da família. Resolvei depois dessa visita investigar um pouco a história dele, quase como se fosse uma biografia mesmo. E descobri coisas fascinantes, coisas que a gente nem imaginava. Ele tem agora 102 anos. É uma história interessante que atravessa o século XX”, diz. 


Segundo ele, o livro conta muitas histórias de um mundo meio arcaico, talvez desconhecido até de muitos paranaenses. “Muitas histórias me lembraram As aventuras de Huckleberry Finn [romance do escritor norte-americano Mark Twain]. Tudo isso dá um hibrido entre a cultura pop e a cultura tradicional”, destaca ao comentar sobre os desafios de contar a trajetória do pai após ter escrito a biografia de dois gigantes da música popular brasileira. “Curiosamente, escrever sobre o meu pai foi mais difícil, por vários motivos. Primeiro, porque ele não tem em torno dele o culto da personalidade. Desta vez eu me voltei para um personagem comum da vida brasileira, que tem uma história que é muito conhecida, mas dentro do universo das pessoas sem estrelato, sem fama”, conclui.  


Nascido em 1962, Jotabê Medeiros é formado em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina. Tem uma longa trajetória como jornalista cultural, tendo atuado em veículos como Folha de Londrina, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, VEJA SP e CNT/Gazeta de Televisão. Atualmente, é um dos editores de Cultura da revista CartaCapital. Além das biografias de Belchior e Raul Seixas, ele também é autor de O Bisbilhoteiro das Galáxias (Lázuli, 2014), finalista do Prêmio Jabuti. 


 

Publicação depende de financiamento coletivo 

Teste de gravura de Luis Matuto para o livro
Teste de gravura de Luis Matuto para o livro | Divulgação
 


Uma campanha de financiamento coletivo busca apoio para viabilizar a publicação do livro “O Último Pau de Arara. Os interessados em apoiar podem fazer suas contribuições até o dia 20 de julho pelo  www.catarse.me/oultimopaudearara. Entre as recompensas para quem apoiar, além da obra em formato físico ou e-book, estão também as xilogravuras que serão produzidas para o livro pelo artista mineiro Luis Matuto. 

O Último Pau de Arara será publicado em uma edição artesanal, com cópias limitadas e numeradas (apenas mil exemplares), acabamentos feitos à mão, impressões tipográficas e ilustrações originais em xilogravura, impressas uma a uma. “Eu tinha visto alguns livros editados pela Grafatório e me dei conta de que era uma editora cuja movimentação se dá na corrente contrária, pois ela não tá preocupada com a coisa do mercado. Está preocupada simplesmente em fazer grandes artefatos literários do ponto de vista do livro, do manuseio e também em recuperar um pouco a questão da impressão, da tipografia, isso tudo me fascinou. Eu queria presentear a família com um livro que fosse especialmente manuseável, guardável, do qual as pessoas tivessem orgulho”, afirma Medeiros. 

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito
Assine e navegue sem anúncios [+]

Últimas notícias

Continue lendo