Jota (ilustrações)
Faz tempo que a revista O Cruzeiro vem merecendo um livro contando toda a sua história. A revista circulou de 1928 a 1975 e teve seu auge na década de 50, quando se anunciava, bem ao estilo de Assis Chateaubriand, seu criador, como a maior e melhor revista brasileira. Em Chatô, o Rei do Brasil, biografia de Chateaubriand, o jornalista Fernando Morais dedica pouco espaço à revista, já que sua intenção era abranger toda a trajetória do fundador dos Diários Associados. Agora, o jornalista Accioly Netto, diretor de redação de O Cruzeiro por mais de 40 anos, conta sua versão da história em O Império de Papel - Os Bastidores de O Cruzeiro (Editora Sulina, 166 páginas, R$ 18). Antes de chegar às livrarias, o livro esteve na gaveta durante 20 anos. Dada a relevância do autor - hoje com 92 anos - na história da revista, o fato só não é espantoso porque estamos no Brasil.
Netto começou em O Cruzeiro em 1933, com a revista em baixa. No ano anterior chegara perto dos 100 mil exemplares semanais e então caíra para 20 mil. Sob sua direção, a revista atingiu tiragens recordes que oscilavam entre 600 mil e 700 mil semanais. Num país com pouco mais de 50 milhões de habitantes e ainda sem televisão, tamanho sucesso conferia à revista a importância de uma Rede Globo.
O humor foi um ingrediente fundamental para conquistar essa fantástica empatia com o leitor. Os humoristas tinham papéis chaves na publicação. Péricles Maranhão criou o seu O Amigo da Onça em 1941 e imediatamente o leitor passou a iniciar a leitura da revista pela página do Amigo. Carlos Estevão era outro que assinava duas páginas de humor na revista. Netto destaca a história da criação do personagem imortal de O Cruzeiro e também comenta a entrada em cena de outro humorista importante para a revista.
FRANÇA, 1998
Millôr Fernandes foi um chamariz de peso para alavancar as vendas. Assinou como Vão Gogo - a partir de 1945 - a seção O Pif-Paf, uma das mais lidas da revista. No início era ilustrada por Péricles que, segundo Netto, atrasava a entrega dos trabalhos, o que levou Millôr a fazer também as ilustrações. Eram duas páginas de humor que cresciam para seis ou oito páginas na edição de Natal. Rapidamente o humorista tornou-se o maior salário da revista, que pagava os maiores salários da imprensa.
A saída de Millôr, em setembro de 1963, foi devido a um encarte especial de dez páginas contando A Verdadeira História do Paraíso, posteriormente publicada em livro pelo humorista. É uma visão bem humorada de um dos trechos da Bíblia e um dos melhores trabalhos de Millôr. Na ocasião de sua saída, em um discurso público, Millôr declarou: Me sinto como um navio abandonando os ratos. Na versão de Accioly Netto, a saída de Millôr foi por causa de uma caricatura grosseira das figuras da Bíblia.
Vários assuntos fundamentais da história da revista são analisados desse modo simplório pelo jornalista. O depoimento guarda o estilo e as imperfeições de O Cruzeiro, inclusive a visão romântica da época. E as fotos publicadas no livro - algumas autografadas com dedicatória para o autor - ajudam a criar o clima da velha O Cruzeiro. Com isso, o livro ganha um tom genuíno mas perde muito em profundidade. E a história de O Cruzeiro ainda fica pedindo para ser contada.
Jota





