Os cartunistas tem um decano de respeito. E não é apenas por causa da idade e do tempo de profissão, requisitos não bastam para conferir respeito à um humorista. Millôr Fernandes mostrou serviço nesses 60 anos de profissão completados em 98 - comprovados com registro em carteira, ele garante.
O múltiplo talento de Millôr Fernandes também se manifestou em haicais de humor sutil e profundo. O humorista foi um mais importantes cultivadores dessa arte no brasil
Millôr é o mais velho (nasceu em 1923) de uma turma de cartunistas - Fortuna, Jaguar, Ziraldo, Claudius e Henfil - modernizadores do desenho de humor no Brasil. Incorporaram ao nosso cartum qualidades técnicas da arte moderna e das artes gráficas européia e norte-americana. Millôr se antecipou e já na década de 40 na revista ‘‘O Cruzeiro’’ publicava desenhos ousados, com o traço livre e bem diferentes dos desenhos da época. Foi o primeiro a perceber as potencialidades da arte moderna aplicada ao cartum. Sua seção ‘‘O Pif-Paf’’ foi ilustrada no início por Péricles, autor de ‘‘O Amigo da Onça’’, mas logo Millôr passou a publicar também seus desenhos, como faz até hoje. Naquela época ainda assinava como Vão Gogo.
Os 60 anos de carreira começaram na revista ‘‘O Cruzeiro’’, onde começou aos 13 anos. Aos 17 anos, descobriu que por um erro do cartorário - que esquecera de cortar o ‘‘t’’ de Milton e de terminar o ‘‘n’’ do final - bem que poderia se chamar Millôr. E passou a ser dono de um dos nomes mais originais de nossa imprensa. E a zelar por ele.
Millôr é multitalentoso e fica até difícil defini-lo. Humorista é pouco. Ele faz cartuns, textos de humor, crônicas; e é tradutor de clássicos - suas traduções de Shakespeare são muito respeitadas. É também dramaturgo e pintor. Seus desenhos publicados na imprensa - ‘‘O Pif-Paf’’ durou de 1945 a 1963 e sua seção na ‘‘Veja’’ completou 14 anos em 1982, quando saiu da publicação por desavenças políticas com a direção da revista - estão entre o que de melhor se produziu nas artes no Brasil. Os desenhos publicados nas duas páginas semanais que mantinha em ‘‘Veja’’ estão à altura - alguns acima - da obra de nossos melhores pintores. É também um dos introdutores do haicai (pequeno poema que veio do Japão) no Brasil. E, com certeza, seu maior divulgador. Millôr criou verdadeiras obras-primas do gênero, à exemplo do haicai que publico abaixo.
Seus textos profundos e filosóficos deram-lhe fama de intelectual e filósofo, esnobada com humor. ‘‘O filósofo do Meyer’’, ‘‘um escritor que também já foi intelectual’’ e o famosa frase ‘‘enfim um escritor sem estilo’’ que escrevia no alto de suas seções de humor são algumas de suas auto-ironias. Seu espírito mordaz também lhe valeu numerosos inimigos distribuídos - nem sempre equilibradamente - na esquerda, na direita e no centro. As feministas também nunca perdoaram suas críticas ao movimento em numerosos textos e frases como ‘‘o melhor movimento feminino ainda é o dos quadris’’.
Um escritor sem estilo que marcou muita gente. Paulo Francis dizia que ‘‘só Rubem Braga escreve português tão bem quanto ele’’. Na famosa ‘‘turma do Pasquim’’, foi peça fundamental da revolução que o semanário carioca fez na imprensa e nos costumes do país. Aos 60, continua na ativa. Publica uma seção no diário ‘‘O Dia’’ e está fazendo o roteiro do próximo longa-metragem de Walter Moreira Salles, diretor de ’’Dias Melhores Virão’’. É uma obra imensa, na qualidade e na quantidade. Afinal, para reunir 5 mil aforismos de qualidade, como ele fez em seu mais recente livro ‘‘Millôr Definitivo - A Bíblia do Caos’’ (1996, Editora LP&M), não basta apenas ter muitos anos de vida.
Jota






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