Se a cor do candidato for azul, mude para vermelho.
Se for vermelha, mude para azul.
Elogie sempre o candidato, mas sempre coloque um porém em algum detalhe: a gravata, o tom de voz ou simplesmente o mau hálito. É nesse pequeno toque que você se torna indispensável.
A posição política do candidato é sempre a correta. Mesmo que se for um reles batedor de carteira.
O adversário está sempre errado. Mesmo que seja a sua (do marqueteiro) vovózinha.
Nunca chame as coisas pelo nome. Nunca diga que a campanha vai bem. Diga que ‘‘o aproach da campanha é elevado’’. Aproach, job, teaser, essa parte do aprendizado exige um pouco mais de tempo. Mais ou menos meia hora numa roda de publicitários tomando chope.
Opine sobre tudo. Não há nada que o marqueteiro não saiba. No fim, se o candidato for eleito, ninguém lembrará que nenhuma das suas idéias foi aproveitada.
Se o candidato não for eleito, você já estará longe.
O marqueteiro de sucesso nunca faz, sempre manda. O sonho de todo o marqueteiro é ter sempre à mão um Chico Buarque precisando de dinheiro.
Para o jingle, peça algo enfático mas com ternura. Isso não quer dizer nada, eu sei. Mas o músico vai fazer um belo trabalho e todos vão elogiar o seu jingle.
Para as cenas de televisão, peça emoção.
Se houver queda nas pesquisas, menos emoção (ou vice versa).
Candidato derrotado é aquele que não seguiu suas determinações.
Candidato vitorioso é aquele que (faça um ar de modéstia antes de proferir a frase) ‘‘ouve bem, ouve bem as instruções’’.Enquanto um candidato oferece mais emprego do que o outro, suas campanhas vão fazendo o serviço na luta contra o desemprego. Só o empenho pela reeleição do FHC vai despejar no mercado 18 milhões de reais. Lula, bem abaixo, entra com 2 milhões.
Não dá para empregar os 8,5 milhões de brasileiros do FHC, muito menos os 15 milhões do Lula, mas já é alguma coisa. Neste período de cerca de três meses dá para arrumar uns trocos. Gráficas, estúdios de televisão, de rádio, agências de publicidade,picaretas, santos, e todo o tipo de gente faz a festa da democracia. Para os menos aquinhoados pela sorte sobra a distribuição de ‘‘santinhos’’ pelas ruas.



Este aquecimento bienal do mercado de trabalho vem a calhar. Parece promessa de político: ‘‘se eu for eleito, prometo que disputo a reeleição e dobro a verba da minha campanha’’. Fortunas também são construídas neste curto período e surgem os emergentes. Alguns para ficar, outros apenas para movimentar o mercado. A turma de Alagoas, por exemplo.
Já que não encontram meios mais eficazes de distribuição de renda, esta tem sido uma das soluções mais eficazes que os políticos trazem para o desemprego. Nestes tempos bicudos (de tucano), a preparação para o trabalho nas eleições pode ser uma das soluções para o desemprego. Cabe ao governo - qualquer um que levar essa - preparar mão de obra qualificada, organizar o mercado e criar regras para seu funcionamento. É até mais eficaz que o tal do ‘‘trabalho temporário’’, grande panacéia encontrada pelos governistas. Nas eleições, pelo menos existe trabalho garantido de dois em dois anos.



Com uma ajuda do Congresso a oferta de empregos pode até dobrar. Basta criar eleições todo ano. Distribuidor de santinho, lustrador de cara de candidato, elogiador expontâneo, as funções são variadass. Mas a mais gratificante é a de marqueteiro político. Além dar mais dinheiro, oferece projeção social e respeito intelectual. Tem marqueteiro por aí que até ajuda a dirigir o Brasil. Além de propor soluções para a crise econômica global, decidir se o candidato vai ser bravo ou manso e se a ‘‘patroa’’ (do candidato) deve aparecer em público. É muita responsabilidade.
Mas é um serviço bem pago e também confere distinção intelectual. Duda Mendonça, por exemplo, hoje opina sobre o momento econômico, a situação cultural e política do país e até sobre a cor cueca do presidente (enquanto candidato). Só não discute Weber pessoalmente com o FHC (candidato) porque o cargo de marqueteiro não é seu. Perdeu a boca para Nizan Guanaes, seu ex-sócio.Se não fosse marqueteiro, Nizan estaria falando de sabão em pó, sabonete e fralda descartável. Não exatamente nesta ordem. Mas está no mundo das campanhas políticas. É marqueteiro, função que, na avaliação da mídia, está alguns pontos acima dos sociólogos, biólogos, cientistas, essas coisas...
Prepare-se também para esta grande chance que surge nesses tempos de vacas magras (e no brejo). O emprego de marqueteiro político. Não requer prática, nem tampouco habilidade. Abaixo damos algumas dicas úteis para você entrar neste importante nicho de mercado e não acabar distribuindo ‘‘santinhos’’ pelas ruas. Torne-se marqueteiro. Decore as lições com cuidado, compre uma agenda grande (para marcar as entrevistas com tal da mídia) e boa sorte.
Jota

MARQUETEIRO EM POUCAS LIÇÕES

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