O Presidente Bill Clinton virou motivo de chacota mundial, mas está se cuidando. Além de evitar amassos na sala oval, contratou um instituto de pesquisas para compilar as piadas que fazem com ele e analisar os efeitos em sua imagem. Os técnicos da ‘‘Ibrox Foudation’’, que realiza trabalhos para o Partido Democrata, vão passar os próximos dias ouvindo piadas no Festival de Edimburgo, um evento tradicional que reúne cômicos de vários países e que começa hoje na Escócia.


Uma caricatura de Lan, feita às pressas para o jornal ‘‘Última Hora’’, foi o azar do maledicente Carlos Lacerda. O ex-governador do Rio passou a ser chamado de ‘‘Corvo’’, e vários desenhistas - como na caricatura acima, de Claudius - passaram a desenhá-lo com as características da aveAs piadas podem fazer mal para a imagem de Clinton, mas ele tem que aturá-las. Democracia tem dessas coisas. Então só lhe resta estudá-las para prevenir eventuais danos que frases, trocadilhos e cenas humorísticas sobre vestidos manchados de sêmen, sexo oral no trabalho, enfim essas coisas comuns na política norte-americana, possam causar à sua carreira política.
A preocupação é válida. Uma piada pode ser fatal em política. E um caso banal na mão de humoristas implacáveis pode ser quase tão letal quanto um rifle em Dallas. Os políticos se defendem como podem, mas é difícil escapar à uma boa caricatura.
Os métodos científicos da democracia de Bill Clinton fariam rir os generais do golpe militar de 64. Logo no início do regime, o jornal de humor ‘‘O Pif-Paf ’’, editado por Millôr Fernandes e que tinha na equipe cobras como Fortuna, Jaguar, Claudius, Sérgio Porto e Ziraldo, não sobreviveu ao oitavo número. A capa trazia uma singela fotomontagem com o marechal Castelo Branco - líder máximo do golpe - de biquini. Os milicos não acharam graça e também não contrataram sociólogos para estudar a piada. Fecharam a revista.
Especialistas em golpes, eles sabiam o poder de uma piada. Mas suas análises eram curtas e grossas. Do semanário ‘‘O Pasquim’’, fundado em 1969, aguentaram as molecagens até 1975, quando implantaram uma dura censura-prévia no jornal. Mas a truculência não evitou as piadas, é claro. Na base do ‘‘só dói quando não rio’’, nnehum governo rendeu tanta piada quanto a ditadura.
Mas jamais um desenho causou tanto mal à um político quanto uma caricatura feita por Lan do ex-governador carioca Carlos Lacerda. Foi publicada em 1952 no diário‘‘Última Hora’’, de propriedade do jornalista Samuel Wainer. Lan desenhou à pedido de Wainer, que pretendia atacar o inimigo Carlos Lacerda, autor de campanhas cerradas contra o governo Getúlio Vargas - apoiado pelo jornal - e que culminariam no suicídio do presidente dois anos depois. A idéia era fazer algo bem pesado, para abalar a imagem de Lacerda. No princípio Lan pensou em caracterizar Lacerda como abutre, mas o caricaturista não lembrava da imagem do bicho. E o jornal já estava para ser impresso, não havia tempo para buscar referências. Lan, então, resolveu caracterizar o político com o corpo de um corvo.
Estampada na capa do ‘‘Última Hora’’ no dia seguinte, acabou grudando na imagem de Carlos Lacerda, que foi chamado de ‘‘Corvo’’ até o fim de seus dias. É bom os técnicos de Bill Clinton se aplicarem em seus estudos no Festival de Edimburgo. Antes que o sêmen do vestido de Mônica Lewinsky respingue no Partido Democrata inteiro.

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