A LÍNGUA
DO ECONOMÊS





O livro ‘‘ABC do nhe, nhe, nhém’’, escrito por dois jornalistas de economia, presta um verdadeiro serviço de utilidade publica traduzindo o economês para a nossa línguaEconomista é mesmo um ser diferente. E no governo, então, eleva-se muitos dígitos acima do mortal comum. Apesar das evidências - hábitos, comportamento, acasalamento - que fazem os estudiosos acreditarem que esta singular espécie pertence ao gênero definido por Platão como o dos ‘‘bípedes implumes’’, algumas atitudes dificultam sua aceitação simplesmente como humanos.
Uma característica que os remete a outro nicho da espécie animal é o raciocínio centrado em números. Pensam o mundo, redefinindo destinos e jogando com a sorte alheia, baseados em suas máquinas de calcular. Com uma multiplicação ou subtração - dependendo da ‘‘linha’’ do economista - eliminam do mercado de trabalho fatias e mais fatias da população. Um dígito pode significar milhares de vidas. E se as contas não dão certo, muda-se o governo e o economista - agora ex-qualquer coisa - passa a ditar suas lições na oposição.
Para manter um bom distanciamento do gênero humano era necessário, porém, um vocabulário particular. Com a desmoralização do javanês, perpetrada pelo desprezível ser humano Lima Barreto, os economistas inventaram o ‘‘economês’’. É um idioma especial; nele, por exemplo, ao invés de ficar com uma dívida, assume-se o ‘‘passivo’’. É uma língua ideal para transformar palpites banais em lições de sábios.
Ainda bem que alguns seres aprenderam o ‘‘economês’’ e traduzem para nós, humanos, o seu significado. Luís Nassif, com seu texto claro como um solo de cavaquinho, é um deles. E foi na sua ‘‘Agência Olho Vivo’’, especializada em jornalismo econômico, que nasceu um dos melhores guias para caminhar pelos labirintos da Economia sem correr o risco de ser devorado por um minotauro. Lúcia Reggiani e José Roberto Alencar, jornalistas da Agência, perceberam que o humor era o melhor meio para destrinchar os termos padrões da economia e do mercado financeiro e trocá-los em miúdos pelo simples e bom português. Afinal, não dá para levar a sério uma linguagem que chama aumento de preços de ‘‘flexibilização’’.
Começaram de brincadeira, só para gozar a empáfia do ‘‘economês’’, mas acabaram se convencendo de que o ‘‘dicionário’’ poderia ser útil para nós, que não participamos do dia-a-dia da ‘‘Agência Dinheiro Vivo’’ e editaram suas engraçadíssimas traduções em ‘‘ABC do nhe, nhe, nhém’’, publicado pela editora Casa da Qualidade. Tem tudo o que o vivente precisa para a doce vingança contra a língua que lambe o seu bolso. E como bons jornalistas da área, cientes da nossa penúria, editaram o livro em formato de bolso e bem baratinho; menos de dez reais. E vale cada centavo pago. Mas para os mais econômicos, selecionei alguns itens do livro.
JotaABC DO NHE, NHE, NHÉM
AÇÃO ORDINÁRIA Parece contra-senso, mas a ordinária é justamente a que sai menos com os fregueses da Bolsa. Dá direito a palpite nas reuniões de acionistas.
ÁGIO Graninha que os ágeis vendedores de mercadoria em falta tomam dos lerdos apressados.
BLUE CHIP Batata frita embolorada? Ao contrário: ação sedutora, vedete das bolsas.
CARTÃO DE CRÉDITO Plastiquinho que serve para pagar tudo, menos a conta do cartão de crédito.
CAUÇÃO Documento exigido pelo credor, para evitar que o devedor lhe dê um banho.
DÍVIDA INTERNA Caderneta de fiado na quitanda mais próxima.
ECONOMISTA Tem gente que acredita.
LEASING Aluguel com opção de compra. Operação preferida por quem está liso.
OVERNIGHT Esbórnia com dinheiro na madrugada; troca-troca entre bancos.

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