O livro da coleção ‘‘Literatura Comentada’’ era o único sobre Sérgio Porto editado nos últimos anos. Em setembro, a editora ‘‘Ediouro’’ lançará ‘‘Macaco Maconhado’’, biografia de Sérgio Porto escrita pelo jornalista Renato Sérgio, para lembrar os trinta anos da morte do escritorDesde o início do ano estamos fazendo nossa festinha particular, aqui nesta página, em homenagem ao escritor Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo extraído do romance ‘‘Serafim Ponte Grande’’, célebre cafajeste inventado por Oswald de Andrade. Sérgio Porto morreu há trinta anos, e como ninguém se lembrava dele há pelo menos uma década resolvemos usar a data para falar do implacável compilador do Febeapá - Festival de Besteira Que Assola o País - e criador do Primo Altamirando, de Rosamundo, do Garoto Linha Dura, e da veneranda Tia Zulmira. O pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta grudou de tal maneira no autor que chamá-lo pelo nome de batismo - Sérgio Marcus Rangel Porto - equivaleria a chamar o craque de futebol Garrincha de... como era mesmo o nome do Garrincha, gente?
Além de ser Stanislaw Ponte Preta, Sérgio Porto se desdobrava para ganhar o pão: foi bancário e colega do cartunista Jaguar. Os dois fingiam que trabalhavam no Banco do Brasil. Jaguar pediu as contas e foi viver de rabiscos. Sérgio... ou melhor, Stanislaw, aposentou-se no banco. No jornalismo fez de tudo, inclusive noticiário esportivo e policial. Trabalhou nas rádios Mayrink Veiga e Guanabara, no Rio, como comentarista esportivo e na produção de textos humorísticos. Na televisão, apresentou programas e foi até redator e locutor de noticiosos; escreveu revistas teatrais, shows para a televisão e boates, diálogos e argumentos para filmes; e, para completar, fazia a coluna mais lida do Brasil, a do Stanislaw Ponte Preta, no jornal ‘‘Última Hora’’.
E tudo isso nas décadas de 50 e 60, período em que foi elaborado - ou definido - o que entendemos como Brasil. Ou seja: o que existe de bom hoje - ainda - em nossa vida, a qualidade da cultura, resquícios de nacionalidade que sobraram, vem de lá. O que tem de ruim é da paulada do golpe militar de 1964, que veio exatamente para acabar com o Brasil que estava sendo construído com criatividade, humanismo e humor. Muito humor. Bom, mas antes que vocês comecem a - ah, sempre quis escrever isso - se debulhar em lágrimas, vamos ao que interessa: uma existência dessas não é para se desperdiçar. Sobre a vida de Sérgio Porto só foi editado um livro, bem mirrado, da coleção ‘‘Literatura Comentada’’, da Editora Abril. Só a capacidade fantástica que o brasileiro tem de esquecer o passado é que explica o fato de uma existência tão interessante não ter virado livro, filme, minissérie, peça de teatro ou, pelo menos, um autor desse naipe ter seus livros de crônicas reeditados constantemente. Ele assinou cinco livros como Sérgio Porto e sete com as crônicas do Stanislaw, todos obras-primas do humor.
Mas onde estávamos mesmo? Estou parecendo o Stanislaw, mesmo sem as minhas goiabinhas. Eu lamentava, desde janeiro, todo este esquecimento em torno da vida e da obra de Sérgio Porto e acreditava que até o aniversário de 30 anos de sua morte seria esquecido. Felizmente me enganei. O jornalista Renato Sérgio, que inclusive conheceu Sérgio Porto, escreveu a biografia do escritor. Vai se chamar ‘‘ Macaco Maconhado’’, título maluco extraído de uma crônica de Stanislaw Ponte Preta, e sairá pela editora ‘‘Ediouro’’, em 30 de setembro, no aniversário de 30 anos da morte do sobrinho de Tia Zulmira. Agora sim, vamos beber o morto com mais alegria.

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