Jota
O PÍCARO
BRASILEIRO
Sempre quieto em seu canto, o escritor Campos de Carvalho criou uma obra admirável. Com apenas cinco livros, está entre os grandes na história da literatura brasileiraCampos de Carvalho (1916-1998) foi um caso raro na literatura brasileira. Escritor brasileiro é tarado por
um holofote, vivem nas folhas, dão tanta atenção para a mídia - o que o senhor acha do tchan
da Carla Perez? E do livro do Caetano? - que só por um milagre daqueles de literatura
fantástica pode sobrar tempo para se dedicarem à escrita. Campos de Carvalho nunca deu atenção para a
vaidade de aparecer. Calado quase como um púcaro, deu uma canseira danada no jornalista Pedro Bial, que
penou durante mais de três horas para arrancar algumas palavras do escritor para o especial exibido pela
GloboNews um mês antes de sua morte. Era mesmo um homem de poucas
palavras; e sua obra, pequena na quantidade e imensa na qualidade, demonstra isso. Escreveu cinco livros,
entre 1954 e 1964, marcantes na literatura brasileira. O primeiro, Banda
Fora, coletânea de ensaios humorísticos publicada em 1941, ele nunca levou em conta.
Coisa da juventude, dizia.
A Tribo, editado em 1954, é
uma espécie de resumo do que viria depois, segundo Carvalho. E depois
vieram: A Lua Vem da µsia, em 1956; Vaca de Nariz
Sutil, em 1961; Chuva Imóvel, em 1963; e o último, do qual
ele gostava mais, O Púcaro Búlgaro, publicado em 1964 com ótimas
ilustraçäes de Poty. Em 1995, os três últimos foram reunidos em um único livro pela editora José Olympio.
São as obras quase completas de Campos de Carvalho, que só permitiu a
reedição destes três trabalhos.
De 64 para cá, ele não mais escreveu. E, garantem os amigos, também
não leu mais nenhum livro. Obviamente também deixou a tal da vida literária,
que já frequentava pouco, para trás. Viveu sempre quieto em seu canto, um apartamento na avenida
Higienópolis, em São Paulo.
A reedição de sua obras pela editora José Olympio animou Campos de
Carvalho a começar a escrever de novo. O nova obra já tinha até dois títulos provisórios: De
Novo no Ovo ou Mosaico sem Moisés. Não deu tempo.
Morreu no dia 10, aos 82 anos, em São Paulo e foi embora com a discrição costumeira. O escritor Mário
Prata - parente de Campos de Carvalho - revelou em uma crônica no jornal O Estado de S.
Paulo que tinha apenas quatro pessoas no velório; entre elas, Antonio Prata, autor da última
entrevista com o escritor.
Campos de Carvalho tinha razão de gostar muito de O
Púcaro Búlgaro. É uma obra-prima de humor e nonsense. Repleta de trocadilhos e de cenas
absurdas que são marcantes em sua obra. O escritor conseguia fazer humor com uma simples frase. Dava
uma torcidinha no sentido e pronto, estava feito. A lista de coisas que o narrador de O
Púcaro Búlgaro deveria levar para a expedição até a Bulgária - caso ela
realmente exista - é um momento especial das nossas (arrãm!) letras. Um pouco da lista, que
resumi para caber aqui, servirá para vocês verem o que andaram perdendo nesse tempo todo. Quem quiser a
íntegra, procure Obra Reunida, de Campos de Carvalho, publicado pela
editora José Olympio.
Jota
PEDAÇOS DA LISTA
Um quadrante, um sextante. Se possível um oitante.
Um astrolábio.
Um planetário.
Uma ampulheta.
Tábuas astronômicas da Lua.
Uma sonda de medir profundidade.
Um mapa-mundi (não desses que se vendem em bazar).
Um telescópio. Um microscópio. 120 escaleres.
(...)
Um penico.
200 quilos de vaselina.
600 rolos de papel higiênico.
Um ventilador, com ventos nordeste, alíseos, etésios e outros.
Um caixão de defunto (vazio).
Um espelho côncavo e um convexo.
Um adivinho.
Um feiticeiro.
Um curandeiro.
Um paleontólogo.
Um maço de palitos.
Um livro de bordo, de preferência já escrito.
Um telefone.
200 garrafas de uísque, 400 de gin, 200 de vermute, 200 de vodca 1000
de cachaça e 1 de guaraná.





