Os irmãos Caruso, Paulo e Chico, mostram nos palcos a mesma habilidade artística que revelaram na caricatura e no cartum. A dupla atua na banda musical ‘‘Conjunto Nacional’’, que apresenta sátiras políticas e de comportamento criadas por Paulo Caruso



OS CHARGISTAS
DA BANDA
O dia do jornalista foi comemorado com estilo, na terça-feira, em Curitiba, pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná. Os irmãos Caruso trouxeram sua banda, a ‘‘Conjunto Nacional’’, para desafinar o coro dos contentes com o FHC e companhia.



Paulo Caruso é o maestro, o motor fundamental do grupo desde sua fundação há 12 anos. Compõe, faz os arranjos, chama a turma para a luta, arruma locais para os shows e o etc. também é com ele. A banda nasceu como ‘‘Tancredo Jazz Band’’, com a nati-morta ‘‘Nova República’’, do vice Sarney. No início, formada por Paulo e Chico, além de Luis Fernando Verissimo e os dois integrantes do Casseta & Planeta, Hubert e Reinaldo, teve pelo menos dois propósitos nobres: abrilhantar a festa de inauguração do Festival de Humor de Piracicaba, em 1985, e desafogar as gavetas do Paulo Caruso, repletas de músicas sobre os políticos brasileiros e suas manhas. Antes de se chamar ‘‘Conjunto Nacional’’ a banda também atendeu pelo nome de ‘‘O Estado a Que Chegamos’’.
No piano, Paulo Caruso utiliza seu talento de cartunista consagrado - publica há 17 anos sua página de humor ‘‘Avenida Brasil’’, na revista ‘‘Isto钒 - para retomar uma linha que vem do berço da música popular brasileira - pois o primeiro samba era de humor, sim sinhô. Faz sátiras políticas e de costume, trabalha em cima do fato e compõe como se fizesse charge política. O resultado, além da qualidade, é, como dizem nas revistas semanais, hilariante. Do general Figueiredo pra cá, todos os mandatários da nação passaram pelas teclas de seu piano e saltaram para o palco nas performances dos gêmeos Caruso.



Idênticos no talento e na cara-de-pau, eles cantam e personificam as músicas no palco. Em um dos espetáculos - dá pra chamar disso - anteriores, os dois personificavam os Collor de Mello; Paulo ia de Pedro e Chico de Fernando. Numa das músicas, Fernando Collor sofria uma revista policial completa no palco. No show da semana passada, Chico atuou como o presidente Clinton na música ‘‘Consolo Para Bill Clinton’’. À maneira de uma charge sua em ‘‘O Globo’’, jornal carioca onde publica desde 1984, invadia o palco como se estivesse trabalhando na Casa Branca: de cueca.
Da formação original, além dos Carusos, permanece Luis Fernando Verissimo, escritor que só não é lido no Brasil pelo FHC. Tímido, Verissimo só consegue subir ao palco escondido atrás de um saxofone. Paulo e Chico fazem o que sempre fizeram desde que nasceram, univitelinos e talentosos. Se exibem para as visitas. E a platéia agradece.
Jota






CANTE COM OS CARUSOS
CEM ANOS DE CORRUPÇÃO
Paulo Caruso
O Brasil já mudou, ninguém pode duvidar
Há um clima no ar, vamos nos locupletar
Não faz mal cometer, um deslize no poder
Isso é bom, muito bom, feio mesmo é empobrecer
Aprendi a roubar, sem sequer me envergonhar
Subornei, corrompi, pra chegar até aqui
Se ganhei ou perdi, isso eu não tô nem aí
Até o ano dois mil, ‘‘meus pobremas’’ resolvi
O PRESIDENTE MULATINHO
Paulo Caruso
Fui de esquerda, hoje sou neoliberal
Marxista, chegadão num capital
Mulatinho, tenho um pé na cozinha
(francesa sem dúvida)
Rive gauche, Montparnasse, etc. e tal
Sociólogo, filho de general
Subo em jegue, mas sou intelectual
Um gourmet, degustando buchadas de bode
(como é que pode)
Sou assim, um ser paradoxal
Max Weber, discuti muito com Foucault
Em Nanterre, cheguei a ser professor
Desbundei com Caetano Veloso
(que charmoso!)
Esnobei Simone de Beauvoir
Jean-Paul Sartre dedicou-me
‘‘L’Etre Et Le Néan’’ com palavras
tipo ‘‘eu sou você amanh㒒
Mão aberta, de planos para o futuro
Mais pão duro que o Fernando Gasparian


ADVERTÊNCIA
Agora que o presidente FHC resolveu explicar o toma-lá-dá-cá e adjetivar a ética*, é necessário um procedimento simples, porém fundamental, para sabermos afinal com quem estamos falando. Sempre que o presidente da República for se dirigir à nação, numa entrevista coletiva, em um discurso oficial ou numa dessas ocasiões em que ele junta os jornalistas para gozar a gente, seria útil uma advertência explicando se ele está falando como sociólogo ou como político.
Jota
*Se existe ética para tudo, então também existe ética para a falta de ética. Estou certo?

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