A VERGONHA
DOS PONTE PRETA





Altamirando flagrado pelo cartunista Jaguar em plena jogatina, para uma ilustração de ‘‘Altamirando e Elas’’, livro de crônicas de Stanislaw editado em 1962






Altamirando Ponte Preta, primo do finado Stanislaw Ponte Preta (1923-1968), um dos grandes do humorismo brasileiro, era um desgosto para a família. Não faria feio na convenção do PMDB que optou por apoiar FHC para mais quatro anos de nhem-nhem-nhem. Para Mirinho, apelido da peça rara, só haveria a dúvida entre se alistar na tropa de choque do ministro da Justiça (sic) Iris Rezende ou na do ex-governador Orestes Quércia.
Altamirando aparecia sempre - mesmo quando não era chamado - nas crônicas de Stanislaw. Palpitando, com frases à altura de seu caráter abominável, ou protagonizando façanhas, que envergonhavam a parentalha. Como a história do casamento anulado.
A proposta de anulação partiu da sogra, depois do dia em que ela saiu no tapa com o padeiro e levou uma surra - ‘‘bizantina’’, segundo Stanislaw - assistida pelo impávido Mirinho. O juiz resolveu anular o casamento por causa desse episódio, revoltado com o cinismo do sobrinho de Tia Zulmira.
- O senhor viu sua sogra levar uma surra do padeiro e não ajudou? - quis saber o magistrado.
- Não, excelência - respondeu Mirinho.
- E porque não ajudou? - estranhou o juiz.
- Porque não ficava bem, dois homens batendo numa velha só.
Figura marcante no regaço dos Ponte Preta, Altamirando foi assunto principal já no segundo livro de crônicas de Stanislaw, o ‘‘Primo Altamirando e Elas’’, editado em 1962. O primeiro, como não podia deixar de ser, foi dedicado à veneranda Tia Zulmira, em ‘‘Tia Zulmira e Eu’’, publicado um ano antes. A tia, aliás, não tinha Altamirando em boa conta. Apoquentada por demais com o indigitado sobrinho, Tia Zulmira só podia acreditar que um sujeito tão ordinário não podia ter tido mãe de jeito nenhum. A digna macróbia defendia a tese de que ele era de chocadeira.
O pai - Gumercindo Tenório Ponte Preta - trouxe Altamirando embrulhado em jornal - era ‘‘O Dia’’, diário sanguinolento - para Tia Zulmira criar.
-Trouxe isto para você, mamãe - falou para Tia Zulmira.
E mais não disse. ‘‘Talvez encabulado com o que andara fazendo 9 meses antes do episódio’’, conta o cronista. Altamirando saiu ao pai. Na apresentação de ‘‘Altamirando e Elas’’, faltaram palavras para Stanislaw apresentar o primo aos leitores. ‘‘Inescrupuloso, abominável, nefando, nefasto’’ foram algumas que ele encontrou.
Foi Mirinho quem aconselhou Ademar de Barros a largar a medicina para se dedicar a vida pública. Quando Al Capone morreu, usou gravata preta e fumo no braço durante um mês. Ficou muito sentido com o falecimento desse seu ídolo.
Há quem diga que andou aprontando mesmo depois da morte de Stanislaw Ponte Preta em 1968, vítima de um café incrementado por um tipo da mesma turma que fechou o carro da estilista Zuzu Angel. Também há quem jure que, além de PC Farias, Mirinho foi um dos inventores da candidatura de Fernando Collor para a Presidência da República. Altamirando emborcava uísque do bom e confabulava muito com Renan Calheiros, agora ministro da Justiça (sic) de FHC, em um mocó escondido em uma das praias de Alagoas. De uma carraspana dessas, teria nascido o ‘‘caçador de marajás’’.
Se a sobrevida de Mirinho for verdade mesmo, o Brasil - e a governabilidade - só têm a ganhar. O tipo, faceiro, ainda nas fraldas já mostrava serviço. Aos cinco anos foi expulso do Jardim da Infância. A professora pegou-o, no recreio, falando mal de São Francisco de Assis. Essa queda para a cafajestice, já disse, é genética; o pai - Gumercindo Tenório Ponte Preta, ao seu dispor - foi quem deu ao Barão de Drummond a idéia de criar o jogo do bicho. E para superar o pai, Mirinho, foi o primeiro sujeito a plantar maconha no Rio de Janeiro. Foi também o primeiro desportista a dar uma gruja ao adversário para amolecer o jogo.
E mais poderíamos contar, se não nos faltasse espaço e estômago, pois Altamirando tem cada história que vou te contar. Tirem as crianças da sala que lá vai a última, que peguei do Stanislaw. Primo Altamirando também trabalhou na imprensa, mais exatamente num desses jornais que quando se espreme sai sangue. Era um repórter atento, sempre a cata de uma fratura exposta, um latrocínio, essas coisas. Certo dia, Mirinho ligou para o jornal pedindo fotógrafo para registrar um atropelado por um trem. Mas o secretário do jornal disse que não valia a pena, pois cadáver inteiro não dava manchete de primeira página. Altamirando, a triste sina dos Ponte Preta, não se abalou:
- Não diga isso, chefe. Mande o fotógrafo que, até ele chegar, eu dou jeito de arrancar a cabeça do falecido.
Ah, Stanislaw, que criação. E na já na década de 60. Vá ser premonitório assim assim no raio que o parta.
Jota

SAÚDE: MODO DE USAR

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