Jota
UM BOM GOLPE EM 64
Jaguar revela um militar de 64 aperfeiçoando
o estilo com as obras completas de Kafka
Acima, Claudius e a paranóia anti-comunista deflagrada pela Redentora
de 1º de abril.
O cartunista Fortuna denunciava, já em 64, com quantos tiros se desfaz uma Reforma Agrária
A primeira paulada na Ditadura Militar quem deu foram os humoristas. Foi logo no primeiro ano da Redentora e os cartunistas Jaguar, Fortuna e Claudius usaram um livro para o golpe certeiro que redimiu, com o riso franco, aberto e corajoso, a democracia recém derrubada. O nome do livro de cartuns - Hay Gobierno -, já era uma ironia com o movimento que derrubara à força em 1964 o presidente João Goulart.
A dedicatória explicava com humor o título. O livro foi dedicado ao náufrago espanhol que, chegando a uma ilha não deserta, perguntou se havia governo. E, quando responderam que sim, disse: - Soy contra! Os desenhos não fariam o náufrago da anedota passar vergonha. Os três cartunistas são claros na denúncia dos desmandos do governo recém-instalado. Todo o clima pesado da época: os exilados saltando fora para salvar a vida; a máquina de corrupção sendo implementada; os dedo-duros entregando até a mãe; os inquéritos militares caçando comunistas à torto e às direitas; a Reforma Agrária (há 34 anos!) sendo tratada com metralhadora ao invés de enxada; tudo está nas páginas - hoje amareladas - de Hay Gobierno, livro que merece uma reedição, nem que seja em homenagem ao golpe de 64.
Hoje em dia estamos livres da festa que os militares faziam, em todos os fins de março, para comemorar o Golpe de 64. Saiam exibindo tanques, metralhadoras e coturnos, as referências morais e intelectuais mais visíveis de seu feito. E o engraçado é que faziam sempre uma comemoração de véspera, um dia antes da data terrível - 1º de abril - , emblemática mas difícil de ser assumida com honra. O movimento, deflagrado na madrugada do dia 1º de abril, foi, por decreto, transferido para o dia anterior. O cartunista Fortuna é quem definiu o dilema com exatidão numa charge esplêndida publicada no extinto diário Correio da Manhã no dia 1º de abril de 1965. Na porta do Registro Civil, Fortuna pendurou o cartaz: Todos os nascidos a 1º de abril devem ser registrados na véspera.
Hay Gobierno foi publicado pela editora Civilização Brasileira, do editor Ênio Silveira, modernizador da técnica editorial no Brasil. O prefácio foi assinado por Paulo Francis, sempre leal ao lema do náufrago espanhol. Na época, Francis era de esquerda. E franco, como sempre. Prefácio sempre foi um artifício editorial para falar bem - e somente isso - do autor do livro prefaciado. Mas Francis, já em 1964, mostrava ao que veio, definindo com precisão a personalidade de cada um dos desenhistas: Fortuna me parece o mais político. Seu desenho é sombrio, às vezes fantasmagórico, criando a atmosfera ideal, pelo contraste, para seu ponto de ataque, sempre direto e conciso. Claudius traduz uma compaixão real pelo underdog, enquanto que no melhor Jaguar existe o prazer purificado do humor pelo humor. Bingo.
Os três, mais Tarso de Castro, Henfil, Sérgio Cabral, Millôr, Ziraldo, Ivan Lessa e seu prefaciador Paulo Francis iriam arrumar mais problemas para a Ditadura Militar criando o semanário O Pasquim, nove anos mais tarde. De Ipanema surgiu uma nova roupa para a imprensa brasileira, engravatada demais naquela época. Mas aí já é outra história. Mais uma bela corajosa e história.
Jota





