UM ENCONTRO
MARCADO






No livro de Augusto
Frederico Schmidt,
a presença de Jaime
Ovalle, Pancetti,
Cornélio Pena e
outras pessoas que,
felizmente, existiramFaz tempo que cruzo com Jaime Ovalle pelos textos dos escritores brasileiros e já no primeiro encontro - uma poesia de Manoel Bandeira em que ele contempla Ovalle morto - me encantei por essa figura mítica. Ovalle era íntimo das coisas do céu, conversava com os anjos, sabia segredos de Deus, e vagava com seu anjo-da-guarda pela ruas da Lapa, no Rio, caçando um canto para beberem um uísque. Para Otto Lara Resende, Ovalle era um largo estuário mágico. A silenciosa presença que inundou a poesia brasileira e marcou todo mundo que passou por ele. Mesmo sem querer. E foram tantos: Drummond, Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Paulo Mendes Campos, Hélio Pelegrino. Tantos.
Mas Jaime Ovalle existiu mesmo? Ou terá sido invenção de seus bons amigos, que com ele compartilharam o uísque e o pão? São tantas histórias, todas revelando um ser mágico, inacreditável, íntimo do invisível. Um homem capaz de se apaixonar por uma pomba. E ser correspondido! Era poeta, até mais do que isso: espalhava poesia influenciando, apenas com sua presença, poetas como Manuel Bandeira. Músico, criou modinhas famosas, entre elas a inesquecível ‘‘Azulão’’.
Andou por toda parte: Paris, Londres, Nova York. Fernando Sabino conta em uma de suas crônicas que o encontrou no céu. Jaime Ovalle trabalhava no 54º andar do Rockfeller Center. O cronista sempre telefonava para os dois se encontrarem na esquina para saírem para beber. Um dia, Ovalle disse que não podia descer porque estava no céu. Curioso, Sabino foi lá para ver o que acontecia e o encontrou feliz em sua mesa. Jaime Ovalle abrira sua janela e a nuvem que rodeava o edifício invadira a sala, envolvendo-o por todos os lados. Estava no céu, em pleno expediente.
Di Cavalcanti contava as histórias de Ovallle de Paris. As histórias de sua viagem pelo Rio Amazonas, só o anjo-da-guarda sabe. Na década de 50, viajaram os dois por aquele mundão de água. Para Otto Lara Resende e Antonio Callado, confidenciou em 1952: ‘‘Não espalhe, mas é possível que Deus não seja muito inteligente.’’ Callado, ateu convicto, impressionou-se. Vindo de Ovalle, uma confissão daquela era de deixar qualquer um apreensivo com o destino das coisas da Terra.
Trabalhou na Alfândega, um cargo público para o qual prestou concurso - um concurso em que ele deveria ser aprovado de qualquer maneira - aqui no Paraná. E foi aqui no Paraná que reencontrei Jaime Ovalle. Em Londrina, nas memórias de Augusto Frederico Schmidt. Com um atraso de quarenta anos saiu a segunda edição de ‘‘As Florestas’’ (Editora TopBooks), escrita pelo editor que lançou, entre outros, Graciliano Ramos, Gilberto Freire, Marques Rebelo e Lúcio Cardoso. No livro está a crônica que Schmidt escreveu quando Ovalle morreu em 1958. ‘‘Ninguém examinou mais de perto do que Ovalle o problema do amor’’, conta Schmidt. ‘‘Não me lembro de ter conhecido homem algum que se tenha apaixonado tanto quanto ele da mulher e seus mistérios’’. Só por essa crônica
, já vale à pena ler ‘‘As Florestas’’, de Schmidt. É um dos melhores indícios da existência de Jaime Ovalle.
Jota




INIMIGOS ÍNTIMOS

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