RITMO E TRAÇO
DO CARNAVAL



Nássara caricaturado pelo colega Augusto Rodrigues em plena atividade de boêmio, quando compunha os sambas que animam o carnaval até os dias de hoje




O compositor Zé Keti caricaturado pelo colega de samba e caricaturista Nássara. O traço sintético do desenhista captou a cara e a alma dos grandes nomes da música popular brasileira







Não é mero saudosismo dizer que não se fazem músicas de carnaval como antigamente. É a pura verdade. O carnaval perdeu a propriedade de ser um criadouro de sambas de que iam além da quarta-feira de cinzas, atravessando os anos e até décadas na memória do folião. Um dos grandes artífices dessa difícil e nobre arte de animar os salões foi o caricaturista-sambista Nássara (1910-1996), um bamba nas artes do samba e da caricatura, que deixou para nós a deliciosa tarefa de decidir em qual das duas ele foi melhor.
Na caricatura criou um estilo único. Seu traço sintético apreendia em poucas linhas as características do modelo e fazia dele um carimbo. ‘‘Criador de logotipo de pessoas’’, na feliz definição do cartunista Jaguar. No seu trabalho de caricaturista a alma de sambista também pulsava forte. Suas páginas na revista ‘‘O Cruzeiro’’ (de 1943 a 1945) ou sua página semanal no diário ‘‘Última Hora’’ (a partir de 1952) demonstram uma interação completa entre o chargista e o compositor. Alguns de seus trabalhos de humor são feitos até com o uso de rimas, à moda das marchinhas de carnaval.
Em depoimento à Herman Lima no quarto volume de ‘‘História da Caricatura no Brasil’’, Nássara explica de um modo interessante a junção dos dois talentos em um só trabalho: ‘‘Às vezes, nas marchas carnavalescas consegue-se fazer charges’’. O caricaturista nasceu antes do compositor, mas os dois conviveram bem na alma de Nássara. O surgimento do compositor numa roda de samba teve o testemunho do historiador da música popular brasileira Lúcio Rangel.



Foi no tempo do Café Nice, início da década de 30. Nássara chegou numa roda em que os compositores se gabavam de suas criações. ‘‘Tenho uma bomba’’, dizia um. ‘‘A minha é maior’’ replicava outro. Nássara então cantarolou a sua: ‘‘Foi Deus quem te fez formosa, Porém este mundo te tornou presunçosa...’’. Francisco Alves, que, segundo Lúcio Rangel, descia de um Studebaker último tipo, foi logo dizendo: ‘‘Este é meu!’’
Sem tocar instrumento algum, Nássara compunha na caixa de fósforos, batucando no chapéu de palha típico dos boêmios ou nas incontáveis mesas dos botecos do Rio de Janeiro. De improviso, criou também um modo original de compor músicas. Sacolejava moedas de níquel no bolso da calça para marcar o compasso. Inúmeras preciosidades da MPB devem ter nascido dessa percussão de dinheiro miúdo, no trajeto entre o Café Suíço e o Café Nice, os pontos de encontro dos bambas do samba.
Além de ‘‘Formosa’’, sucesso na voz de Chico Alves, o caricaturista-sambista emplacou ‘‘Florisbela’’, ‘‘Caramuru’’, ‘‘Periquitinho Verde’’, ‘‘Meu Consolo é Voc꒒ e o maior sucesso do carnaval de 1950, que durou até a década de 60 e deve voltar um dia desses para os salões. Trata-se de ‘‘Balzaquiana’’, de estribilho fácil e sugestivo - ‘‘Não quero broto, não quero’’ - capaz de comover os corações maduros. E tem também, é claro, ‘‘Alá-lá-ô’’, sucesso em qualquer carnaval nos últimos trinta anos. Mesmo se pintar aiatolá no salão.
Jota





DOLLY, A FALSA

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