Jota
Jota
O escritor Graciliano Ramos foi prefeito de sua cidade natal, Palmeira dos Índios. Honesto (uma novidade também na época) e talentoso, seus relatórios sobre sua gestão fazem parte da história da literatura brasileira
UM ALAGOANO
DE BOA CEPA
As artes e manhas na lida com o dinheiro público causam cada vez menos espanto ao reeleitor brasileiro. Mas Alagoas sempre contribui para abalar a pasmaceira do roubo comum e cotidiano que, executado sem originalidade e ousadia, acaba por chatear a gente. Esta descoberta recente de que deputado alagoano não paga Imposto de Renda, revela sofisticação. Lá, nem existe a preocupação em fingir o pagamento com papelzinho preenchido. Tem deputado que nem faz a declaração.
Um ilustre alagoano, Graciliano Ramos (1892-1953), costumava brincar com a possibilidade de escavar Alagoas para que o Brasil pudesse ter um Golfo. Daria importância estratégica ao nosso país, dizia Graciliano, cabra arretado, caladão, mas de tiradas muito engraçadas. E que é a redenção de sua terra. O escritor conhecia bem a política de Alagoas. Foi prefeito de Palmeiras dos Índios na década de 20. Prefeito honesto, uma raridade também naquele tempo.
Os Relatórios sobre sua gestão revelaram ao Brasil o escritor por detrás do prefeito. São dois relatórios, sempre citados, mas pouco lidos. Publicados no Diário Oficial de Alagoas, acabaram caindo nas mãos do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt que desconfiou: Aquele prefeito devia ter um livro engavetado. E o prefeito Graciliano Ramos tinha mesmo. Seu primeiro romance Caetés (então Cahetés) acabou sendo publicado em 1933 pela Editora Schmidt, do Rio.
Graciliano Ramos era um homem sincero. De poucas e precisas palavras. Muitas histórias acabaram surgindo em função de seu conhecido pessimismo. É difícil saber quantas são reais. Numa delas, ele faz par com o crítico Otto Maria Carpeaux. Depois de fazer um balanço da situação da época - década de 40 - , Graciliano chegou a conclusão de que todos em breve iriam acabar pedindo esmolas. Carpeaux - páreo duro até para o escritor em matéria de pessimismo -, concordou mas levantou uma ressalva: Mas a quem seu Graça, a quem?
Vejam os trechos que selecionei dos famosos Relatórios da Prefeitura de Palmeiras dos Índios, um dos documentos mais interessantes da nossa história política. Depois corram para lê-los na íntegra, vale à pena. Prefeito, para escrever desse jeito, só sendo um Graciliano Ramos
O RELATÓRIO DO PREFEITO
No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68:850$000, atingiu 96:924$985.
-E não empreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam deles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinariamente raspados, escorchados, esbrugados pelos exatores.
-Convenho que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo caso, transformando em pedra, cal, cimento etc., sempre procedo melhor que se distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados.
-Pensei em construir um cemitério novo, pois o que temos dentro em pouco será insuficiente, mas os trabalhos a que me aventurei, necessários aos vivos, não me permitiram a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os mortos esperarão mais algum tempo. São os munícipes que não reclamam.
-A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.
-Não pretendo levar ao público a idéia de que meus empreendimentos tenham vulto. Sei perfeitamente que são miuçalhas. Mas afinal existem. E, comparados a outros ainda menores, demonstram que aqui pelo interior podem tentar-se coisas um pouco diferentes dessas invisíveis sem grandes esforços de imaginação ou microscópio.
-Não fui eu, primeiramente porque o dinheiro despendido era do povo, em segundo lugar porque tornaram fácil a minha tarefa uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis.
-Mas para que semear promessas que não sei se darão frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me referia quando eles estiverem executados, se isto acontecer.
-Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não realizar, o prejuízo não será grande.
-O município, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.





