Jota

COM A PALAVRA, TIA ZULMIRATia Zulmira desenhada pelo cartunista Jaguar, amigo de Sérgio Porto desde antes de ele se tornar StanislawSe os brasileiros tivessem memória, este poderia ser um ano dedicado ao escritor Sérgio Porto, cronista de estilo original e autor das crônicas mais populares da nossa imprensa, que assinava como Stanislaw Ponte Preta. Sérgio Porto morreu aos 45 anos no dia 29 de setembro de 1968, em plena época de linha-dura no país. A Ditadura Militar estava rija e forte e de radinho de pilha colada no ouvido.
São trinta anos sem o sobrinho da Tia Zulmira, a velha matriarca que comandava com muito humor a família Ponte Preta, formada por Stanislaw, o patriotíssimo Bonifácio, o ditraído Rosamundo e o canalha Altamirando. Mais que um pseudônimo, Stanislaw era praticamente um heterônimo para Sérgio Porto. Parecia existir de de verdade e por pouco não obscureceu o autor.
Na pele de Stanislaw, Sérgio Porto criou também o inesquecível Febeapá, Festival de Besteira que Assola o País, onde catalogava e revelava aos leitores as besteiras praticadas - e ditas - pela Ditadura Militar e seus apaniguados. Ao contrário de Sérgio Porto, o Febeapá continua muito vivo.
Em ano reeleitoral, não haveria homenageado melhor. Mas até agora nada aconteceu. Nem uma palavra, reedições de livros, memórias, especial na televisão. Nada. E olhem que nem Sérgio Porto e muito menos Stanislaw pediram que esquecessem o que escreveram.
Talvez saia alguma nota no jornais lá pra setembro, bem pequena, ao lado de uma matéria de página inteira sobre o filho - ou neto, afilhado, amante, reprodutor, uma dessas coisas - de alguma apresentadora de televisão. Televisão, aliás, sobre a qual Stanislaw alertava aos seus queridos leitores já na década de 60: ‘‘Quem assiste à programação noturna da televisão não é capaz de imaginar que a diurna é pior’’.



Mas enquanto setembro não chega pra gente prantear com mais gosto o falecido, vamos lembrar Stanislaw pela boca - e que boca - de sua veneranda Tia Zulmira, a flor dos Ponte Preta. Ex-condessa prussiana, ex-vedete do Follies Bergére, cozinheira da coluna Prestes, além de outros predicados, a respeitável macróbia era a voz mais sábia da família.
Senhora corajosa, sem meias palavras, Tia Zulmira era o personagem mais popular de Stanislaw, que repassava suas frases para os leitores de sua coluna. Recolhi algumas do último livro editado por Sérgio Porto e publicado póstumamente pela Codecri, editora do extinto semanário O Pasquim. Em 1994 foi feita uma segunda edição pela editora Civilização Brasileira. Vamos ouvir as palavras sábias da titia.

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