Em época de grana curta, o tema dinheiro deu muito assunto nos depoimentos de 94 personalidades à jornalista Lu FernandesA jornalista Lu Lacerda é uma das pessoas que lucraram com a queda das Bolsas. Seu livro ‘‘Tudo Que Eu Já Fiz Por Dinheiro’’, publicado no ano passado pela editora Objetiva, é um daqueles produtos que se tornam cada vez mais valorizados com a crise. Em tempos de cintos apertados, dinheiro é sempre um bom assunto.
O que não se faz por dinheiro, minha gente! Lu Lacerda foi à luta e juntou o depoimento de 94 personalidades sobre a importância do dinheiro em suas vidas. Conseguiu depoimentos diversificados, que vão do besteirol do cantor (sic) Falcão ao emocionado relato da viúva do instrumentista Rafael Rabello. A receita é a mesma de outro livro seu, editado em 94, em que especulava sobre sexo.
O resultado de ‘‘Tudo Que Eu Já Fiz Por Dinheiro’’ é superior ao livro sobre sexo. Há mais sinceridade em vasculhar existencialmente o conteúdo dos bolsos do que nos comentários sobre sexo. Bem pago, um psicanalista explica isso. E também por que até as mentiras são mais reveladoras quando a pergunta é grana.
A ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, por exemplo, acha que o pior do dinheiro é ‘‘sua capacidade de estragar as pessoas’’. E também revela que tem ‘‘uma relação de absoluto respeito com o dinheiro’’. Delfim Netto diz que ‘‘não tem ligação mais profunda com o dinheiro propriamente dito’’. E nós, que pagamos a conta, não apostamos nem um vintém na honestidade das respostas dos dois.
Mas também há espaço para a sinceridade. Gustavo Franco, presidente do Banco Central, diz que ‘‘dinheiro é algo complicado de se entender e administrar’’. O depoimento é anterior à surpresa de Franco com o ataque especulativo contra o Real. Mais sinceridade só com a modelo Adriane Galisteu. ‘‘Não condeno quem faça qualquer coisa por dinheiro’’, ela diz. E conta que seu falecido namorado também não era feliz, apesar da fama e do dinheiro. Não conseguiu realizar o sonho da vida dele - e aqui ia bem aquela música-tema que a Globo transformou em réquiem -, que era conhecer a Disney.
Num livro como este, aproveita-se tudo. Até os depoimentos que não valem um tostão furado isoladamente, contribuem no conjunto. É como juntar tostões. Outros são muito preciosos, verdadeiras crônicas, como os depoimentos de Dorival Caymmi, Millôr Fernandes, Luis Fernando Verissimo, Paulinho da Viola e do jornalista Lucas Mendes, - grande contador de histórias - que narra a incrível aventura vivida na Nicarágua, quando esqueceu um pacote de 15 mil dólares em um banheiro coletivo de uma pensão vagabunda.
No final da leitura, ainda sobra a conclusão de que dinheiro não é tudo na vida. Índice também é importante. A Objetiva cochilou e editou o livro - que traz 94 depoimentos, repito - sem índice. Não há dinheiro que pague a chateação de ficar caçando os depoimentos página por página. Porém, colhi graciosamente algumas frases valiosas para vocês.

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