Darcy Ribeiro, morto em fevereiro deste ano, deixou escrita em ‘‘Confissões’’ sua derradeira e apaixonada versão sobre a vidaHá um texto do escritor russo Vladimir Maikóvski que parece ter sido feito para o Darcy Ribeiro (1922-1997). Nele, o poeta diz o seguinte: ‘‘Em algum lugar do mundo, no Brasil, existe um homem feliz’’. Sabe-se lá porque Maikóvski, um dos revolucionários soviéticos de 1917, resolveu colocar justamente o Brasil no meio de seu poema, mas a descrição bate: se havia alguém feliz no mundo era o brasileiro Darcy Ribeiro.
Para ele não tinha tempo ruim. Solar, quente, tropicalíssimo, defensor sem tréguas da superioridade dos trópicos em relação ao dito Primeiro Mundo. Era um poço de contentamento com a vida. Nem o câncer lhe tirou o bom humor. Exilado em 1964, voltou ao Brasil em 1974, em plena Ditadura Militar, numa concessão especial dos militares. Vinha para morrer em sua pátria. Doente terminal, era, porém, mantido sob vigia permanente. O pretexto era sua proteção contra ataques terroristas ou subversivos. Chateado com a ‘‘proteção’’, Darcy Ribeiro pediu:
-Ótimo. Mas me protejam só à cinco metros de distância.
A Ditadura morreu primeiro. Darcy Ribeiro extraiu um dos pulmões e viveu até surgir o câncer que o matou em fevereiro, aos 74 anos. O aviso da doença fatal veio há dois anos e apressou Darcy para dar acabamento a seus variados projetos. Na área editorial, concluiu dois livros e deixou outro - um romance - quase pronto. ‘‘Confissões’’, sua autobiografia é um dos textos finalizados, escrito numa conjugação cara ao autor: a primeira pessoa
Elétrico, capaz de realizações espantosas - o Sambódromo, no Rio, foi posto de pé em quatro meses -, Darcy não tinha tempo para a modéstia. ‘‘Sou vaidoso de mim. Convivo comigo há setenta e poucos anos e continuo gostando’’, escreve em sua autobiografia. Mas é perdoável em um homem que foi duas vezes ministro e assessor de quatro presidentes da República - Juscelino Kubitscheck, João Goulart, Salvador Allende (Chile) e Juan Velasco Alvarado (Peru) - e que como antropólogo e educador criou a Universidade de Brasília, ajudou na Criação do Parque do Xingu, criou os Cieps de educação integral, elegeu-se para o senado e - ninguém é perfeito - membro da Academia Brasileira de Letras. E se o poeta Drummond, sempre parco em elogios, disse que este homem era ‘‘um caudal de vida’’, então ele merece gozar o prestígio.
Essa franqueza, com muito bom humor, marca cada página de ‘‘Confissões’’. A franqueza na análise do mundo e seus viventes é típica de Darcy Ribeiro, um homem movido à paixões. Para o Brasil, a maior delas, valia tudo. Até a transmutação de defeitos em adjetivos. Aqui, acreditava Darcy, nasceria uma nova civilização. Uma Roma do Terceiro Milênio, trigueira e boa de cama. Depois do Socialismo Moreno, evidentemente.
Outras biografias de Darcy Ribeiro certamente virão. Polêmico, mulherengo, realizador e sem papas na língua, sua vida é melhor do que ficção. Mas sua versão é imbatível. Seu ponto de vida é pessoal e intransferível, de uma individualidade sem par, mas ao mesmo tempo desapegado de dinheiro e de poder. E solidário, sempre solidário com o próximo, Darcy Ribeiro deixou o testemunho de uma vida rara. De alguém que gostava de gente.

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