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O caricaturista Hermenegildo Sábat lança seu segundo livro no Brasil, com uma retrospectiva de seu trabalho nesses últimos 20 anos



A resposta da indagação da capa do livro de Hermenegildo Sábat é uma lição de arte. ‘‘Quem é Sábat’’, lançado pela editora Paz e Terra (177 páginas., R$ 60), traz uma retrospectiva da obra do caricaturista de deixar qualquer um embasbacado. E também vexado, se este qualquer um nunca tiver ouvido falar desse elegante senhor.
Sábat é um homem do mundo, um espécime raro; globalizado, sim senhor, antes dessa palavrinha começar a ser usada para qualquer coisa. Mas, antes de tudo, Sábat é uruguaio, argentino e brasileiro. Nasceu no Uruguai em 1933, onde começou a rabiscar nos rastros de seu avô, que era jornalista, cartunista e pintor. E professor. ‘‘Todas essas coisas me impressionaram e eu, de algum modo, segui seus passos’’, diz Sábat.
Na Argentina, onde mora, publica no jornal ‘‘El Clarin’’ caricaturas de políticos e artistas. É um aficionado do jazz e tem livros publicados sobre o tema que demonstram um apurado conhecimento do assunto. O tango também ocupa um belo espaço em sua alma, com um canto para Carlos Gardel, que homenageou com álbuns de desenho que são umas preciosidades. Obras-primas da técnica editorial. Também editou um livro sobre Jorge Luis Borges, numa entrevista em que anda o tempo todo triscando a linha entre o imaginário e o real, uma pegada em cada lado. Com o escritor argentino Julio Cortázar, Sábat fez outra obra fantástica, ‘‘Monsieur Lautrec’’.



Na caricatura do então ministro da Fazenda Delfim Netto, na década de 80, Sábat mostra sem palavras a face de um homem que dança conforme a música. Estatizante na hora certa e, logo após, liberal de bater cartão de ponto. Deu nessa coisa expressionista que o artista anteveu há quinze anos

No Brasil, entrou pela porta da imprensa alternativa publicando caricaturas no semanário Opinião, na década de 70. Pela editora Paz e Terra, do empresário Fernando Gasparian, editor de ‘‘Opinião’’, publicou em 1983 um belo livro, ‘‘Minha Opinião’’, com caricaturas de personagens da política brasileira. Getúlio Vargas e Lacerda; Delfim Netto, Rischibieter e Simonsen; Severo Gomes e Ulisses Guimarães; Golbery, Geisel e Figueiredo; e outros que dá até tristeza lembrar. Sábat desenhou o livro inteiro direto no fotolito, riscando com um estilete - uma espécie de faquinha - a película preta. As imagens saem impressas como se fossem em negativo.
É uma demonstração da técnica de Sábat. O que vier ele traça. Lápis, caneta esferográfica, aquarela, guache, ecoline, nanquim. É o experimentalista que dá sempre certo. Vê-lo desenhar é um espetáculo tão bonito e surpreendente quanto o resultado final. O cartunista Alcy conta que ao fazer uma caricatura sua, Sábat ia pegando o que tinha à mão: caneta de ponta porosa, lápis, nanquim, água suja do pote de limpar pincéis. Tudo. O espectador chegava até a pensar que tudo estava perdido, tanta a sujeira acumulada no papel. Mas Sábat logo pegava uma tinta branca. Limpava uma sobrancelha, dava uns toques no nariz e pronto: uma belíssima caricatura aqui para o freguês.
Dessa profusão de técnicas surge um trabalho com uma unidade impressionante. O artista é pródigo no uso dos meios de que dispõe para que as idéias possam avançar com naturalidade. ‘‘Eu uso várias técnicas. É como o amor. Se você transforma o amor em rotina, você fica aborrecido. Para trabalhar na coisa que você sonhou fazer, você tem que regar a planta para que ela continue viva’’, ele explica. Este é o Sábat.
Jota

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