CARTASDO
AMIGODE ALICE


O escritor inglês Lewis Carrol adorava fotografar meninas em poses que lhe valeram a suspeita de pedofilia. Para elas escreveu centenas de cartas, tão criativas quantos suas famosas histórias infantisO escritor inglês Lewis Carroll (1832-1898) carrega a fama - injusta para alguns - de ter cultivado em vida um suspeito pendor por ninfetas. As fotografias - de excelente qualidade artística - que tirava de menininhas e a amizade íntima com suas pequenas modelos é que fixaram esta marca em sua biografia. Autor de ‘‘Alice no País das Maravilhas’’, uma das obras mais marcantes da história da literatura, Carroll, aliás Charles Lutwidge Dodgson, era pastor anglicano e professor de matemática, e também pintor e fotógrafo. Além de fotografar as meninas, de idades entre 10 e 15 anos, o reverendo Charles Dogdson também gostava de escrever cartas para elas. Escreveu exatamente 98.721 cartas para suas amiguinhas.
A Editora Sette Letras publicou 50 delas em ‘‘Cartas às Suas Amiguinhas’’, de Lewis Carrol. A tradução é de Newton Paulo Teixeira dos Santos, que na introdução do livro tenta dissipar as desconfianças em relação às intenções de Carrol quanto às destinatárias de suas missivas. Cita um escritor português, Miguel Esteves Cardoso, que lamenta a dificuldade das pessoas em entender a paixão do escritor pela infância sem recorrer à sexualidade. ‘‘Carrol gostava de meninas como quem gosta de gatos ou de comboios’’, garante o escritor português.



Outros dizem que essa predileção do escritor fazia parte do espírito da época. No século XIX não se via nenhum problema neste tipo de relacionamento já que a maioria dos homens casava tarde com esposas mais jovens. Seja lá o que for, a literatura agradece. Das amizades infantis de Lewis Carrol saiu pelo menos uma obra-prima: ‘‘Alice no País das Maravilhas’’. A história nasceu de um passeio de barco com três de suas amiguinhas, Edith, Lorina e Alice Liddell. As meninas pediram uma história e Carrol inventou ‘‘Alice’’ numa tarde de verão em 1862.
Uma nova biografia do escritor publicada na Inglaterra garante que Carrol teve um caso amoroso com a mãe das três pequenas convivas desse bendito passeio de barco, o que comprovaria que seu interesse era apenas o de compartilhar o rico universo criativo das crianças. Nas cartas publicadas em ‘‘Cartas às Suas Amiguinhas’’ percebe-se o escritor exercitando a escrita e procurando as chaves para o florescente imaginário infantil. Carrol divertia-se em participar das fantasias e dos jogos das crianças. E até de tomar imaginários chás com biscoitos. Sua relação com as amiguinhas, nota-se nas cartas, era de total entrega à lógica incomum da infância, incompreensível para a maioria dos adultos.



Essa que publico, endereçada há 131 anos para a pequena Mary Macdonald, dá uma mostra da qualidade das outras 49 cartas. É quase um conto, um texto delicado e sutil que dá prazer de ler. Especialmente nestes tempos em que não se escreve mais cartas. Muito menos para crianças.
Jota
Para Mary Macdonald
23 de maio de 1864
Minha querida menina,
Faz tanto calor aqui que até hoje eu tenho andando enfraquecido, a ponto de quase não poder segurar a caneta; e mesmo se fosse capaz de segurá-la, não haveria tinta: a tinta evaporou, formando uma nuvem de vapor negro e, nesse estado, ela permanece flutuando pela sala, sujando as paredes e o teto, de tal forma que não faço outra coisa que ficar olhando. Hoje está mais fresco, e um pouco de tinta, sob a forma de neve negra, entrou no tinteiro. Espero que haja o suficiente para que eu possa escrever e enviar as fotografias que sua mãe deseja.
Essa canícula me entristece e me deixa mal-humorado; às vezes tenho dificuldade em manter minha calma. Por exemplo; ainda há pouco o Bispo de Oxford veio me ver. Foi, de sua parte, uma atenção das mais cordiais e sem outra intenção que a de ser gentil. Pois eu fiquei tão irritado ao vê-lo entrar em minha casa, que joguei um livro em sua cabeça, e temo tê-lo ferido seriamente. (N.B - Isso não é verdade, portanto você não está obrigada a acreditar).
Da próxima vez não seja tão apressada em acreditar nos outros, e eu vou lhe dizer por que: se você se esforça para acreditar em tudo o que lhe contam, você vai cansar os músculos de seu espírito e vai ficar tão enfraquecida que não será mais capaz de acreditar nas verdades mais elementares. Não faz nem uma semana, um de meus amigos fez um grande esforço para acreditar na história de Jack-o-Matador-de-Gigantes. Conseguiu, mas perdeu tanta energia que, quando eu lhe disse que estava chovendo ( o que era verdade), ele foi absolutamente incapaz de acreditar, e saiu para a rua sem chapéu nem guarda-chuva. Em consequência, seus cabelos ficaram inteiramente molhados e seu topete levou mais de dois dias para recuperar a forma. (NB - Receio que parte dessa história não seja verdadeira).
Diga a Greville que estou acabando seu retrato (o que deve ir numa moldura oval, você sabe), e espero enviá-lo em um ou dois dias. Diga também a sua mamãe que lamento informar que nenhuma de minhas irmãs virá a Londres neste verão.
Dê lembranças a seu papai e a sua mamãe. Para você e as outras crianças, todo o meu carinho. Permaneço seu amigo afeiçoado,
Charles L. Dodgson
A única coisa desagradável que me aconteceu na última sexta-feira foi receber sua carta. Viu?









APERTAR OS CINTOS: ISTO É REAL

mockup