Jota
O PAI DOS
MALUCOSBELEZAS
Sexo, drogas e rocknroll são os ingredientes das engraçadas histórias em quadrinhos dos Freak Brothers, relançadas esta semana em Porto Alegre pela editora LP&M com a presença do autor, o cartunista norte-americano Gilbert Shelton
O sonho acabou mesmo, mas que foi engraçado, foi. E a prova incontestável, o cartunista Gilbert Shelton, esteve esta semana em Porto Alegre participando da 43ªFeira do Livro e relançando, pela editora LP&M, o segundo volume das aventuras dos Freak Brothers, um trio de malucos belezas da melhor - ou pior - estirpe.
Shelton é um dos criadores dos quadrinhos underground norte-americano na década de 60, quando uma turma de artistas - entre eles Robert Crumb, autor de Mr. Natural e de Fritz The Cat - passou a editar suas próprias histórias em quadrinhos e a vendê-las de mão em mão pelas ruas. Essa atitude acabou alterando o rumo das histórias em quadrinhos na América do Norte e criando muitos problemas para o modo de vida americano, o tal de american way of life. As histórias não faziam questão de seguir as normas de bom comportamento dos ratos, patos e gatos que divertiam a América.
Os três malucos belezas criados por Gilbert Shelton vivem suas aventuras na época do ácido lisérgico e da paz e amor. Os Freak Brothers já venderam mais de 5 milhões de álbuns e agora vão virar filme
Fritz The Cat, de Crumb, desvirtuava todas as regras de bom comportamento felino. O gato Fritz se embebedava, usava drogas e participava de orgias sexuais. Mesmo após sua morte - assassinado com um estilete cravado na cabeça - a fauna dos quadrinhos nunca mais foi a mesma. Gilbert Shelton nunca desenhou tão bem quanto Crumb, mas foi o mais engraçado de todos os alternativos. Seus três personagens malucos - Fat Freddy, Phineas Freak, Freewhelin Franklin, além do gato de estimação de Fat, um felino do pior tipo - viviam fumando maconha ou caçando um ácido em algum canto suspeito.
COM ALGUM MEDO
DE NÃO SER FELIZ
Freak Brothers foi publicado pela primeira vez em 1967 nos Estados Unidos. Aqui no Brasil chegou em 1971, numa edição da extinta revista Grilo, que trazia textos e quadrinhos da contracultura em plena Ditadura Militar. Era uma turma de coragem, que depois acabou criando o tablóide Ex-, o melhor fruto da imprensa nanica. Vivíamos tempos difíceis. Aqui, ditadura militar. Lá nos EUA, racismo, Vietnã, repressão pesada, a moçada vivendo em comunidades, experimentando de tudo, enfrentando a polícia nos protestos políticos, procurando lições nas vias místicas, no ácido lisérgico, na paz e amor e, claro, lendo quadrinhos. Os artistas do quadrinho underground inventaram os quadrinhos para adultos. Com muita droga, sexo e rocknroll. Crumb fez a capa de um álbum da cantora Janis Joplin e devolveu com um palavrão o cheque que a gravadora lhe mandou como pagamento. Explicou depois que tinha feito o desenho para Janis como amigo. Eram outros tempos.
Robert Crumb também viria para a Feira em Porto Alegre, mas teve que participar do casamento de seu filho na Califórnia. Shelton, 57 anos, de cabelos penteados e barba aparadinha com tesoura, veio e contou que os Freak Brothers vão virar filme e apresentou novos personagens, ainda inéditos no Brasil. Também formam um trio, de um conjunto de músicos punks. Mas são todos caretas. Nenhuma semelhança com a trinca de malucos dos anos 60. Para o cartunista, aquela loucura toda deu em nada. O mundo não aprendeu nada com os hippies. A juventude vive hoje uma espécie de anos 50 sem acreditar em nada, disse à imprensa em Porto Alegre. Sonho, agora, só nos álbuns do Freak Brothers.
Jota





