UM PRÊMIO
IGNOBILÍSSIMO



O bicho virtual ‘‘Tamagotchi’’ é um dos projetos agraciados com o Prêmio Ignobel, que premia o esforço científico na tentativa de incorporar mais besteiras à vida humana. O bicho, que não fede e nem cheira e muitos menos salta, faz carinho ou canta, foi criado pela empresa Bandai, do Japão
O Prêmio Nobel gerou um rebento que, aos poucos, vai se firmando como um referencial da ‘‘qualidade’’ do pensamento humano. É o Prêmio Ignobel, bastardo batizado a partir de um trocadilho infame com a palavra ‘‘ignóbil’’, e que é destinado à pessoas ou instituições que contribuíram de forma significativa com uma grande estupidez para vida no Planeta.
A respeitabilidade científica dos patrocinadores do prêmio não é brincadeira. A iniciativa é de Marc Abrahams, editor do ‘‘The Annals of Improbable Research’’ (Anais da Pesquisa Improvável), e de pesquisadores do conceituadíssimo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
Entregue na mesma época do Nobel, seu crescente prestígio deve preocupar os velhinhos da Academia Sueca que decidem quem vai levar o Prêmio Nobel para casa. É prestígio e cerca de um milhão de dólares em dinheiro. Com o Prêmio Ignobel, o agraciado só leva desaforo para casa.




Na literatura, apenas o escritor francês Jean-Paul Sartre teve estrutura existencial para recusar, em 1964, o Prêmio Nobel. Mas muita gente se faz de raposa - e denuncia as uvas verdes - quando é anunciada a lista de premiados. As injustiças são muitas. Fora os injustiçados históricos (James Joyce, por exemplo), cada país tem o seu rol de preteridos. Portugal acha que o dele é José Saramago, mas o escritor português desdenha o prêmio: ‘‘Apenas minha conta bancária mudaria’’. O poeta italiano Eugenio Montale aceitou o prêmio com precaução. Disse já ter visto tantos medíocres triunfarem que esperava não ser mais um. Só por essa, mereceu o milhão de dólares.




No Brasil é uma injustiça não outorgarem o Nobel de Literatura para o escritor Jorge Amado, que já tem discurso de agradecimento escrito e revisado há pelo menos dez anos. Outra grave falta com o nosso lindo e trigueiro foi não terem premiado a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello com o Nobel de Economia, pelo ousadíssimo projeto de estabilização econômica, que consistiu simplesmente (heureca!) em retirar todo o dinheiro de circulação, simplesmente (heureca novamente!) surrupiando a população. Injustiça dupla, neste caso, pois ela não levou nem o merecido Prêmio Ignobel.
Mas a esperança é a última a ser pranteada. Um dia chegará a vez dos brasileiros que, pelo menos nesta premiação, podem acabar levando vantagem, certo? Confira os vencedores do Prêmio Ignobel de 1997, e vamos torcer para que as nossas ignóbeis cores brilhem no ano que vem.
Jota





Nobres Ganhadores do Ignobel
ENTOMOLOGIA
Mark Hostetler, da Universidade da Flórida.
- Pelo livro‘‘Aquela Meleca no seu Carro’’, no qual são identificados os insetos que se esborracham no vidro dos automóveis
ASTRONOMIA
Richard Hoagland, de Nova Iorque.
- Por identificar paisagens artificiais na Lua e em Marte, como uma face na superfície marciana e prédios de mais de 10km de altura no lado escuro da Lua
FÍSICA
John Bockris, da Universidade Texas A&M.
- Por pesquisas com fusão fria de transformação de elementos em ouro
LITERATURA
Doron Witztum, Eliyauh Rips e Yoav Rosenberg, de Israel, e Michael Drosnin, dos EUA.
- Por sua pesquisa estatística, que afirma que a Bíblia contém um código secreto
MEDICINA
Carl J. Charnetski e Francis X. Brennan Jr., da Universidade Wilkes, e James F. Harrison, da empresa Muzak Ltda., de Seattle, Washington (EUA).
- Pela descoberta de que ouvir música de elevador estimula a defesa do organismo contra infecções e pode prevenir o resfriado
ECONOMIA
Akihiro Yokoi, da empresa Wiz, e Aki Maita, da empresa Bandai, do Japão.
- Por terem inventado o Tamagotchi e com isso desviado milhões de horas de trabalho com bichos virtuais
PAZ
Harold Hillman, da Universidade de Surrey, Inglaterra.
- Pelo relatório ‘‘A dor possível experimentada durante a execução por diferentes métodos’’, publicada em ‘‘Perception’’, 1993, volume 22

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