Jota
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de outubro de 1997
Jota O bom e velho Braga 
Um menino aponta uma onda, grita alguma coisa, ri. Eu sei: ele está torcendo pela ressaca; todos os meninos do mundo são a favor das ressacas e das enchentes.
Se há duas coisas que se aproximam de uma sessão de psicanálise são a confissão católica e a conversa na mesa de bar.
O pai de família exclamou ao ver, ainda no começo de novembro, despontar o primeiro Papai Noel em anúncio de televisão: lá vem ele, lá vem ele outra vez, o Abominável Homem das Neves!
Onde moram - perguntaria o menino - esses três pretos e brancos que estão derrubando a casa? Moram em barracos de caixote e zinco, talvez no morro ali perto. Mas então por que, no lugar de derrubar a casa, eles não vão morar nela?
Os crentes dizem que Deus está em toda a parte; mas ninguém me tira da cabeça que a iluminação, os ruídos do tráfego, a televisão, os rádios tocando alto, tudo isso o aborrece um pouco.
Nessa mulher madura, a beleza está morando, a beleza não é só um acidente fortuito, é sua maneira de ser.
Há um susto nas coisas; as mulheres deslizam em silêncio como peixes.
Imagino que ele veio visitar alguém que não está mais ali, alguém que não existe mais ou anda longe, muito longe.
Naquele tempo eu, às vezes, escrevia assim, enfeitado, meio oratório. Mas eu tinha razão.
Recebo um cartão de Paris, não é de amante nem namorada, é apenas uma recente amiga; mas como foi gentil em se lembrar de mim, em me mandar seu abraço, e como está linda na fotografia! Essa delicadeza gratuita me faz bem. Ganhei meu dia, ganhei minha noite, já não me sinto mais sozinho na varanda triste.


