QUEM TE VIU,
QUEM TE VÊ



Fernando Henrique Cardoso quando era um sociólogo de oposição ao Regime Militar.
O tempo e o poder se encarregaram de apagar os traços combativos e desafiantes
e aplicar-lhe na cara o famoso
riso sardônico à FHCAinda está para ser escrito - e daria um belo livro - um estudo sobre a política recente do país baseado nas caricaturas de nossos políticos. Apenas a análise da cara dos caricaturados e sua transformação através dos tempos seria revelador para o entendimento do nosso processo político. E ficaria claro, principalmente, a mudança na cara dos homens cuja vida é dedicada a mandar (ou tentar) mandar no próximo.
Veja ilustre passageiro o tipo faceiro que está aqui ao lado. Acredite: é o Fernando Henrique. É de um livro de caricaturas de Hermenegildo Sábat, uruguaio que trabalhou durante a década de 70 no semanário Opinião, jornal de oposição ao Regime Militar. O livro é de 1983 e chama-se ‘‘Minha Opinião’’. Nesta época o Presidente militava na oposição. Era um dos dirigentes do Cebrap, uma organização civil (naquele época não existia a palavra Ong) que lutava pelas liberdades democráticas. Onde foi parar esse belo rapaz de ombros eretos e rosto firme e combativo, este ícone perfeito do intelectual libertário?
E mais: de onde surgiu a dentadura enorme e o sorriso sardônico hoje impresso na cara do Presidente? Olhando os dois Fernandos, o de agora e o de 1983 feito pelo Sábat, cabe perguntar: o que nasce primeiro; a deformação captada pelo artista ou aquela que a carreira gruda na figura do político?
Alguns políticos tentam fugir da caricatura. Paulo Maluf, assessorado pelo publicitário Duda Mendonça, tentou desconstruir o traço dos chargistas através de uma operação plástica na bolsa de gordura embaixo dos olhos. Mas pouco adiantou. Nas caricaturas lá está o Maluf de sempre, revelando o malogro da estratégia de marketing. E nem mesmo um mago marketeiro que passasse o bisturi na papada, substituisse a boca enorme por finos lábios e acrescentasse fartos fios na careca proeminente conseguiria o milagre de fazer o político parecer melhor que a caricatura.
Já o deputado e ex-ministro Delfim Neto tenta escapar da similitude com sua caricatura alardeando que não vê nenhum problema com elas e que até coleciona as charges com sua figura. Um caso de ato falho que revela grave desequilíbrio psicológico, pois é impossível encontrar alguém são - com exceção do ex-ministro, é claro - que aprecie ser parecido com o Delfim Neto das caricaturas. Há algum tempo, Delfim Neto, apareceu numa revista dizendo que gostava delas. Para seu azar, aparecia numa foto com uma charge do Chico Caruso ao fundo. O chargista imediatamente denunciou a farsa. Não era um original do artista, porque algum aspone se incumbira de apagar detalhes da charge que certamente desagradariam o ex-ministro. Neste caso o marketeiro tentou resolver o problema com uma cirugia plástica na caricatura.
Enfim, as diferenças não enganam. Na caricatura brasileira está a possibilidade de entendermos e estudarmos nossa realidade política com uma profundidade que poucos estudos sociológicos alcançariam. Os políticos sabem disso e tentam escapar destes impressionantes espelhos gráficos. E enquanto isso prosseguem na construção de suas caricaturas.
Jota

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