O HUMORISTA
MORENO






Caricatura de Manuel Bandeira feita pelo pintor Di Cavalcanti. Abaixo, uma caricatura de 1944, ‘‘Nazismo, Plutocracia, Opressão’’. Os desenhos políticos do pintor tem sempre uma carga de revolta contra os opressores da população pobre. Di foi o próprio ‘‘socialista moreno’’, militante político e ligado às boas coisas da vida








O pintor Di Cavalcanti (1897-1976), era o próprio adepto do ‘‘Socialismo Moreno’’, décadas antes de Darcy Ribeiro - um socialista moreno da mais autêntica cepa - inventar mais este adjetivo político. Di foi uma figura marcante na arte brasileira. É muito mais do que o ‘‘pintor das mulatas’’, um rótulo que grudaram em sua arte. Criador excepcional - foi sua a idéia da Semana de Arte Moderna de 1922 - , é um dos formadores do que se pode chamar Brasil. Não fosse ele e seus contemporâneos - Drummond, Graciliano, Bandeira, Murilo Mendes, Guimarães Rosa, Pixinguinha, Portinari, Lucio Costa, Niemeyer e tanta gente boa - terem arregaçado as mangas e criado uma estrutura sólida, uma base cultural para a nossa nacionalidade, estaríamos agora bem próximos do Zaire, Ruanda, por aí.
Di Cavalcanti começou como caricaturista. E dos bons. Herman Lima, estudioso da caricatura brasileira e autor da ‘‘História da Caricatura no Brasil’’, onde são dedicadas dez páginas ao Di caricaturista, diz que ‘‘Ele teria sido um dos nossos maiores caricaturistas, se persistisse no gênero de que a pintura o afastaria depois, definitivamente...’’
Em 1914, Di publicou a primeira caricatura na revista ‘‘Fon-Fon!’’. Sua primeira exposição foi também de caricaturas. Em 1933, editou o álbum ‘‘A Realidade Brasileira’’, uma publicação marcante na história da caricatura brasileira. Seus desenhos dessa época são sempre comprometidos com os problemas sociais, com o homem do povo. Mas não falta espaço para as cenas pitorescas de ruas e de bares. Mas seu lado comunista, do artista que teve conhecimento da revolução bolchevista em 1917 e ficou fascinado com a possibilidade da construção do socialismo é marcante em seus desenhos. Esta faceta politizada lhe valeu a eterna hostilidade - na boa companhia de Portinari - dos críticos e artistas que acreditam que maço de cigarro jogado no chão é arte.
No fim da década, o Di pintor já havia engolido o caricaturista. Os desenhos de humor tornaram-se apenas um elemento secundário em sua carreira. Mas seu lápis mantinha-se sempre afiado, pronto para caricaturar os amigos nas mesas de bares ou colaborar com alguma boa causa. Desenhou contra os nazistas, atacou os capitalistas. E como bom iconoclasta, conseguiu ser perseguido pela polícia de Getúlio Vargas e também ser preso como ‘‘getulista’’ em 1932, em São Paulo, durante a Revolução Constitucionalista.
Lutou bastante, porém sem perder o contato com a alegria da vida, qualidade marcante em suas telas. É o mais bem humorado dos pintores brasileiros. Traços de um homem que tinha gosto em viver e que era, uma das figuras mais populares do Rio de Janeiro. Amigo de todos: militares e civis, espíritas e católicos, pobres e grã-finos... Uma amabilidade que fez Aníbal Machado - outro criador do Brasil - defini-lo como ‘‘Di, o enamorado da vida’’.
Jota

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