Sérgio Porto, criador do Stanislaw Ponte Preta, foi passado para trás pelo personagem, que acabou se tornando mais famoso que o criador. Sérgio Porto nasceu em 1923 em Copacabana, no Rio de Janeiro. Trabalhou durante 15 anos no Banco do Brasil, de onde saiu ‘‘sem saber o que era letra de câmbio e avalista’’. Ingressou no jornalismo em 1949 e criou Stanislaw Ponte Preta no Diário Carioca, no início da década de 50. Mas foi no jornal Última Hora, para onde se transferiu em 1955, que o personagem aconteceu de fato. Stanislaw nasceu como uma ironia de Sérgio Porto aos cronistas sociais da época. Ibrahim Sued, o mais característico deles, era a vítima preferida. Agradecido pelos tropeços do cronista, Stanislaw chegava a exclamar em sua coluna: ‘‘Ah, Ibrahim, Ibrahim... se não fosse você o que seria de mim.’’

Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, aprontando no céu, no traço do caricaturista e compositor NássaraPara acompanhar Stanislaw, Sérgio Porto criou a incrível família Ponte Preta. Chefiada pela veneranda macróbia Tia Zulmira, era composta pelo auriverdíssimo Bonifácio Patriota, o distraído Rosamundo e o cafajeste primo Altamirando, definido por Stanislaw assim: ‘‘Aqueles que estiverem pensando o pior de primo Altamirando, ainda estão longe de fazer idéia de como ele 钒. Tia zulmira defendia a tese de que Altamirando, filho de mãe desconhecida, era de chocadeira, porque um ‘‘sujeito de caráter deletério como o Primo, não pode ter tido mãe de jeito nenhum’’.

A sábia Tia Zulmira é a maior criação de Sérgio Porto. Ex-condessa prussiana, ex-vedete do Follies Bergére, cozinheira da coluna Prestes, além de outros predicados, a velha tia era uma espécie de alter ego de Sérgio Porto, útil para comentar qualquer assunto e atacar o besteirol nacional. Tia Zulmira, aliás, foi um dos nomes cotados para o semanário de humor O Pasquim, antes do nome definitivo.
Para cuidar específicamente do besteirol, já bem volumoso naquela época, Stanislaw criou o Febeapá, Festival de Besteiras que Assola o País, onde destacava as besteiras ditas e acontecidas do Oiapoque ao Chuí. Com o Golpe Militar de 1964, Sérgio Porto pôde contar com um farto material e Stanislaw não perdoava os milicos e seus apaniguados. Uma das máximas do ano de 1965 foi a proibição da venda de vodca, segundo o diretor de suprimento em Brasília ‘‘para combater o comunismo’’.

Sérgio Porto era um homem de sete instrumentos e mais alguns. Tinha uma extraordinária capacidade de trabalho. Além de manter a família Ponte Preta, trabalhou no rádio como comentarista esportivo e redator de textos humorísticos, apresentou programas na televisão e foi redator e locutor de noticiosos, escreveu revistas teatrais, shows para a televisão e boates, diálogos e argumentos para filmes, etc. Criou expressões que se incorporaram à fala brasileira. ‘‘Bossa nova’’, ‘‘teatro rebolado’’, ‘‘sente o drama’’, ‘‘vou te contar’’, são algumas das expressões de sua lavra. Criou também a célebre eleição das ‘‘Dez Mais Certinhas do Lalau’’ - seleção enxutíssima de ‘‘mulheres de quatrocentos talheres‘‘, outra expressão criada pela ‘‘flor dos Ponte Preta’’ -, numa paródia aos concursos das ‘‘dez mais elegantes’’, promovidos por cronistas sociais e muito em voga na época.

Tanto esforço lhe valheu três enfartes, sendo o último, mortal.Contribuiu para o enfarte fatal a tentativa de envenenamento sofrida por Sérgio Porto dois meses antes em um intervalo de seu ‘‘Show do Crioulo Doido’’, baseado no seu sucesso ‘‘Samba do Crioulo Doido’’. Alguém misturou doses cavalares de algum psicotrópico no café que ele costumava tomar nos intervalos do show. O cronista passou mal e deu entrevistas à imprensa acusando terroristas de direita. Sérgio Porto e Stanislaw morreram no dia 29 de setembro de 1968. Muitos calhordas respiraram aliviados neste dia.

O cronista Sérgio Porto na pele de Stanislaw Ponte Preta, acompanhado pela família, desenhada por Carlos Estevão, ilustrador de suas crônicas em ‘‘O Cruzeiro’’. De braços com o autor, Tia Zulmira. Da esquerda para a direita, Bonifácio Patriota, o distraído Rosamundo, e o cafajeste Primo Altamirando

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