OS TRAÇOS DO MAESTRO

Caricatura de Marcello Mastroianni, feita para a construção do personagem do cronista social vivido pelo ator em ‘‘A Doce Vida’’Os dicionários nos oferecem vários adjetivos - grande, genial, fantástico - para definir Federico Fellini (1920-1993). Mas é a palavra ’’original‘‘ que nos vem à cabeça com mais frequência quando pensamos no grande ‘‘maestro’’. O ponto fundamental da obra do cineasta italiano, o cerne de seus filmes encantadores, é sua originalidade fantástica. Para Fellini não bastava a paisagem do mundo. Não se contentava nem com o oceano. Construia suas próprias águas. Em ’’La Nave Va‘‘, de 1983, os admiradores que embarcam no navio que leva as cinzas da diva Edmea Tetua navegam sobre um mar feliniano. Antes, em 1983, ele também havia feito o mar em ‘‘Amarcord’’. ‘‘Como se pode refazer o mar? Bastam duas folhas de plástico e dois maquinistas de boa vontade’’, ensina Fellini em uma de suas entrevistas.

O nascimento da personagem da mulher da tabacaria, do filme ‘‘Amarcord’’ (1973), no traço de Fellini. O cineasta desenhava bastante antes de começar a trabalhar no roteiro escrito de seus filmes. Acima, o resultado final na telaSeus filmes também nasciam de um modo muito original. Antes de qualquer coisa, Fellini desenhava as cenas e os personagens que desejava transportar para as telas. É ele que conta, numa entrevista da década de setenta: ‘‘Quando preparo um filme escrevo muito pouco. Prefiro desenhar personagens, cenários. Adquiri este hábito quando trabalhava para os musicais do interior’’. O cineasta desenhava em qualquer papel que tinha à mão. Muitas de suas idéias nasciam sob forma de imagem. Com traço ágil, criava as cenas e elaborava os personagens. Estes rabiscos - feitos com canetas coloridas de ponta porosa - também serviam de indicador para orientar seus colaboradores: o decorador, o figurinista, o maquiador, etc.


O talento para o desenho também foi providencial para Fellini nos duros tempos do pós-guerra na Itália. Já fizera alguns roteiros para o cinema, mas seu primeiro filme - Mulheres e Luzes - como diretor só viria em 1950. O cinema já lhe dava alguma fama em Roma, mas pouco dinheiro. Para sobreviver, fazia caricaturas dos soldados americanos, das tropas dos Aliados. Sustentou-se um bom tempo com seus traços, que alguns anos depois saltaríam para as telas em filmes que hoje fazem parte da história do cinema.
Jota

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