Jota
Ser Mulher, uma sátira de Carlos Estevão`ao machismo, numa das seções que criou para a revista O Cruzeiro. Abaixo, um desenho de O Amigo da Onça
O Brasil no Traço
este dia 14 de julho faz 25 anos da morte do humorista Carlos Estevão (1921-1972). Foi um dos colaboradores mais populares de O Cruzeiro, revista que começou a ser publicada em 1928 e reinou, soberana na cultura e na política do Brasil, até a década de 60. O Cruzeiro tinha um poder político imenso, do qual seu proprietário Assis Chateaubriand usava e abusava. A revista era a Rede Globo da época. Em um Brasil sem televisão - que seria inaugurada somente em 1950 por Chateaubriand - , quem ditava as modas era o rádio e a mídia impressa.
O único desenhista que era páreo para Carlos Estevão em popularidade era Péricles, o autor de O Amigo da Onça. O grande sucesso da revista eram as seções de humor e era comum dizer que o leitor de O Cruzeiro começava a leitura da revista pelo Amigo da Onça, depois corria para as páginas de Carlos Estevão, passava pelo O Pif-Paf - assinado por Vão Gogo, pseudônimo de Millôr Fernandes -, e só então se dedicava à leitura da revista.
Carlos Estevão assinava duas páginas na revista. Seu traço era extremamente popular e tinha em sem seu trabalho aquele elemento, de difícil definição, mas que é perceptível na primeira olhada: era extremamente brasileiro. Desenhista habilidoso - dos mais completos do humor brasileiro: fazia quadrinhos, caricaturas, cartuns, e tudo com a maior qualidade - , desenhava em detalhes nos cartuns ( então chamados simplesmente de piadas) os elementos da época. Vestimentas, hábitos, os tipos populares, a arquitetura, os automóveis, está tudo na obra de Carlos Estevão. Somente J. Carlos rivaliza com ele como documentarista de uma época.
Em O Cruzeiro, tinha o hábito de criar seções, com um tema definido, para fazer humor. Assim, criou Perguntas Indiscretas, Ser Mulher e As Aparências Enganam. Para contrabalançar o Ser Mulher, uma sátira ao machismo, criou o Ser Homem. Na revista também fez dobradinha com Stanislaw Ponte Preta, ilustrando as crônicas do grande personagem criado por Sérgio Porto. Na década de 50 lançou as aventuras do Dr. Macarra, personagem que publicou nas páginas de O Cruzeiro e que fez muito sucesso, acabando por ganhar revista própria. Com a morte de Péricles, em 1962, passou a desenhar o Amigo da Onça, que cresceu como personagem, incorporando temas contemporâneos (como a rebeldia da juventude) e amadurecendo à duras penas, igualzinho ao país.
Até sua morte, há 25 anos em Belo Horizonte, publicava no Diário de Minas e consertava rádios e ferros-elétricos como hobby. Era, como eu disse, bem brasileiro.
Jota
SINAL DE (BOA) VIDA EM MARTE





