É puro teatro!

A mídia é um terreno fértil para o surgimento e crescimento de produtos artísticos adubados pela impostura. Os arranjos são facilitados tanto pela força dos grandes grupos que usam o planeta para colher dinheiro quanto por jornalistas e apaniguados, sempre marcando presença no rádio, na televisão ou nos jornais e revistas.

O primeiro caso salta aos olhos: é a americanização cultural dos países do mundo com os ‘‘blockbusters’’ arrasando qualquer manifestação nacional de cultura. Aqui pesa bastante a triste subserviência dos meios de comunicação à qualquer filmeco de Hollywood ou cantor berrando em inglês. O ‘‘hit’’ de ocasião, seja filme, música ou qualquer bossa, vêm sempre embalado por poderosos jabaculês.

O segundo caso é mais sutil e, portanto, muito mais interessante para a análise. A roupagem deve ser moderna e até um certo inconformismo ajuda na ocupação do espaço. Exige também a cumplicidade de certas panelinhas – jornalísticas e afins – para um melhor progresso. A palavra vanguarda é aconselhável como componente básico, encobrindo carências de conteúdo ou criatividade. Ou ambas.

Vivemos uma farsa – afinal era um festival de Teatro – dessas no final de março, aqui no Paraná. E como se apresentou essa rara oportunidade para vermos por dentro como se engendra um falso acontecimento, com toda a técnica malandra de construção da mentira artística, vale a pena contar a história.

Cena 1 O diretor de teatro Gerald Thomas – introdutor do revolucionário método do gelo seco no teatro brasileiro – está em Curitiba. É o dia 20 de março e para o público presente ao teatro Guairinha, Thomas mostrou um trabalho inacabado. Os atores recitam textos desconexos. Não há obra teatral. A platéia não é boba e por isso reclama. O diretor confirmou para este jornal que realmente não havia preparado o trabalho que prometera à direção do festival: ‘‘Esse espetáculo foi escrito na segunda-feira passada... É uma homenagem aos grupos que têm que estrear um espetáculo e não estão prontos para estrear.’’




Cena 2 O mesmo Gerald Thomas está no Rio de Janeiro, no dia 8 de abril, onde estréia a peça ‘‘Tragédia Rave’’, a mesma que deveria ter apresentado em Curitiba. Claro que o jornal paulista ‘‘Folha de S. Paulo’’ publica matéria – com uma foto de Thomas com seus cabelos longos ainda molhados; ou será gel? Vamos ler o início: ‘‘Depois de provocar polêmica no Festival de Teatro de Curitiba no mês passado, o diretor Gerald Thomas estréia hoje...’’ E por aí vai. Acho que chega, não? Vamos para a cena três.

Cena 3 Agora somos nós lendo o ‘‘Caderno B’’, do Jornal do Brasil. Fala sobre o mesmo assunto: a estréia da peça no Rio. Vamos ao texto: ‘‘Gerald Thomas e a Cia. de Ópera Seca estréiam, hoje, às 23hs (sic), no Espaço Cultural Sérgio Porto, a Tragédia Rave. A peça, encenada no último Festival de Teatro de Curitiba, causou polêmica e muita confusão entre Thomas e a direção do festival.’’ É interessante notar a construção do texto, a criação de uma nova realidade, muito diferente da vivida em Curitiba.

Mas tem mais. Logo Gerald influi no texto com maestria: ‘‘Tragédia Rave nada tem a ver com discussões diretas sobre pagamento, ou não, do festival de Curitiba. Quis fazer uma brincadeira e, até certo ponto, uma homenagem. Se ficaram zangados, digo com toda a certeza que ficaram felizes também. Nunca levo somente uma peça, levo um evento, um tumulto.’’

A platéia curitibana – composta, em boa parte, de gente do teatro, é bom dizer – também é menosprezada pelo autor da matéria que, muito animado com a verve do diretor, escreve que a peça ‘‘traz uma discussão sobre a produção teatral, o que levou a direção do festival e parte da imprensa a acreditarem que o diretor tivesse escrito a peça naquele momento’’.

Cena 4 Somos nós, aqui no Paraná, embasbacados com a habilidade farsesca. Nem vou dizer que o diretor afirmou a este jornal no dia da estréia, em Curitiba, que o espetáculo foi ‘‘escrito na segunda-feira passada... É uma homenagem aos grupos que têm que estrear um espetáculo e não estão prontos para estrear.’’ Isso não importa: o espetáculo inacabado tornou-se completo. As reações iradas foram produzidas pela qualidade da performance. Havia uma grande obra de arte em gestação: a de produzir notícias de polêmica artística onde havia apenas fraude. O autor, um gênio polêmico e generoso com uma platéia incapaz de avaliar a obra-prima que teve frente aos olhos, é que faz a história.

Cena 5 Nós, a platéia, novamente. Agora aplaudindo com entusiasmo, todos de pé exigindo a presença de Gerald Thomas para receber os apupos. Afinal, ele merece: o homem é um artista.






Finalmente uma homenagem significativa ao cineasta espanhol Luís Buñuel. Prefeitos dos municípios de Nuñomoral e Ladrillar, na região de Hurdes, na Espanha, se opõem a uma homenagem a Buñuel no centenário de seu nascimento. Os dois prefeitos se sentem ofendidos por uma obra do cineasta, o curta-metragem ‘‘Las Hurdes, tierra sin pan’’, rodado na região.

Mesmo após a morte Buñuel continua recebendo o reconhecimento supremo de todo surrealista: o repúdio de mentes provincianas e retrógadas. Para completar, os políticos também se opõem a que o Centro de Documentação de Hurdes exponha um busto em homenagem ao cineasta. O bom e velho Buñuel deve estar rolando na cova. De satisfação.

Falando nisso, a realidade brasileira adquire tons cada vez mais surrealistas. Crianças mortas por leões agora? A bizarrice da fruteira na sala presidencial, onde o desafio é descobrir a banda boa nas frutas podres.

Pobres crianças; pobres leões.
Já passou da hora do ser humano parar de se divertir com animais torturados e aterrorizados. Farra do boi, rodeio, briga de galo, doma de feras; o homem é o lobo de todas as outras espécies – inclusive do lobo. E também é o lobo de si próprio.

Sinto que agora a coisa vai: inovações tecnológicas de peso no governo do bipresidente FHC. O ministro da Justiça, José Carlos Dias, foi demitido pelo sistema telefônico de ‘‘viva voz’’. Daí para demitir ministro pela Internet é um pequeno passo, gente! Eita nóis!

Mas Rafael, o Greca, está de bico. A demissão do ministro da Justiça empana de certo modo o brilho do apogeu de sua fritura, que coincidirá com a festa dos ‘‘500 anos sei lá de qu꒒ no dia 22 de abril.

Extra! Extra! Depois de sua fantástica recuperação – após uma demorada estadia em Londres – o general Augusto Pinochet pode ser convocado para a seleção chilena de futebol e já é nome praticamente certo para o mundial de 2002. Vai que é tua, Pinochet!

Escuta, gente: e esse atropelamento no qual o cantor Alexandre Pires está envolvido? Não terá sido suicídio do rapaz que dirigia a moto? Convêm chamar o Badan Palhares para esclarecer melhor isso.





O Brasil está mesmo numa situação difícil. Outro dia vi umas crianças brincando de polícia e ladrão e ninguém queria ser a polícia.
Animação geral entre os postulantes a vagas na Academia Brasileira de Letras. O imortal Roberto Campos não publicou sua coluna publicada aos domingos em um jornal paulista. -

O que eu não gosto no senador ACM é está sua ânsia de ocupar todos os espaços, sem respeitar os espaço alheio. Agora já começou a avançar no espaço do Edmundo. Ora, assim não dá!


Ser pobre não envergonha ninguém. Mas com um salário mínimo desses é vexatório.
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A Torre de Pisa nada mais é que um monumento à incompetência, já que sua famosa inclinação é fruto de um erro de cálculo. É uma ironia humana atraindo milhares de turistas que ignoram obras mais bonitas e imensamente mais importantes na história da arquitetura mas que sofrem de um grave defeito: deram certo.


Revolução nos métodos de investigação policial no Brasil: tem mais bandidos infiltrados entre a polícia do que vice-versa.
Ei pessoal: era para ser o contrário. A polícia é que tinha que influenciar o ladrão.

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