O TRAÇODEMADEIRA






Acima, as pequenas gravuras que Rubem Grilo expõe em Curitiba. Abaixo, uma gravura de 1985; nessa época o artista se esmerava nos detalhes, que hoje trabalha isoladamente




Era difícil acreditar que as ilustrações de Rubem Grilo, nas páginas do semanário Movimento (1975-1981), eram feitas em xilogravura. Nesta técnica, os desenhos são escavados na madeira com um instrumento cortante e a área em relevo é que imprime a imagem. É o ‘‘traço’’ do gravador. Os detalhados desenhos do Grilo, repletos de figuras, algumas com linhas finas iguais as de caneta esferográfica, pareciam impossíveis de terem sido feitos na madeira.
Suas ilustrações (enviadas do Rio) eram recebidas com admiração pelos desenhistas que, na redação em São Paulo, criavam ilustrações para serem submetidas à Censura. Após passar pelo crivo do censor, os esboços aprovados (sempre menos de 40% do volume enviado) eram finalizados para publicação. Como a execução de uma xilogravura exige muito tempo, Grilo mandava suas ilustrações prontas. Na redação alguém se incumbia de fazer um esboço das imagens. Para burlar a censura era preciso enviar um esboço simplificado. E o trabalho do Grilo, muito expressivo, precisava de um ’’amaciamento’’ no esboço para não melindrar a censura.
A publicação na imprensa tornou o trabalho de Rubem Grilo conhecido do grande público, livrando-o da penumbra que envolve a gravura no Brasil e relega seus artistas - os melhores da arte brasileira - quase ao anonimato. Escapou à essa sina mantendo sempre, paralelo às exposições, colaborações em jornais e revistas do país. No exterior - consagração máxima na área - publicou várias vezes na revista Graphis, respeitada publicação de artes gráficas.






Agora o artista está expondo em Curitiba (Museu Metropolitano de Arte, até 27 de julho). São gravuras minúsculas que parecem extraídas da profusão de detalhes de suas obras anteriores. Nestas gravuras mínimas - algumas quase do tamanho da unha de um polegar - Grilo trabalha com a síntese. Na exposição, além de um singular vocabulário gráfico, mostra figuras que chama de ‘‘objetos em disfunção’’. Óculos, vassouras, cadeiras, tesouras e outros objetos fazem parte desse universo que exige atenção do espectador, forçado a fixar os olhos na obra que já é um detalhe em si. Uma proposta interessante, de um artista que sempre trabalhou para abrir os olhos das pessoas.
Jota

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